19:02ZÉ DA SILVA

O homem mais feliz do mundo tinha chegado aos 70 perdido dentro de uma garrafa de bebida alcoólica. Rico, podia viajar para qualquer lugar do mundo, ficar um ano nos melhores hotéis, enfim, em qualquer paraíso terrestre, mas… Dificilmente saía do bairro onde morava porque ali perto, na esquina, ficava o bar onde bebia. O homem mais feliz do mundo tinha um carrão importado que, nas raras vezes em que saía, sempre dava problema mecânico. Ele então parava, deixava a mulher esperando, abria o capô, tirava um canudinho do bolso e tomava goles e goles da vodca que colocara antes no compartimento de água. O homem mais feliz do mundo era um filósofo. Depois que conseguiu retomar o controle da própria vida após internamento complicado, dizia com sua voz rouca que era preciso sempre dar valor às coisas simples e boas, porque a tendência do ser humano é dar um peso maior e irreal aos acontecimentos negativos. “A balança tem que ser equilibrada  para a gente seguir em frente”, dizia. Toda vez que dizia isso, depois sorria como uma criança iluminada de quase oitenta anos. Foi feliz até partir, porque sabia que cada dia que ficou de bem consigo mesmo valia muito mais do que todos os anos de tormento.

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