7:21Ponto de não retorno

Por Ivan Schmidt

De uns tempos para cá tenho pensado que a única solução para a crise política brasileira é a psiquiatria. Mas, com uma ressalva inevitável: o caso, pela profundidade que exibe, precisaria de uma pletora de psiquiatras do naipe de Freud, Charcot, Pinel, Simão Bacamarte e quantos outros estejam disponíveis, mas convencidos pela penúria atual a taxar seus serviços profissionais pela tabela do SUS.

Longe de mim que sou homem crente nas virtudes humanas e até um pouco beócio para acreditar na fala empolada (ou seria engrolada?) dos pais da pátria, manifestar qualquer dúvida em relação à patota empoderada (eta palavrinha esquizofrênica!) nos mais altos escalões do que se chama gongoricamente de instituições da República.

Para não complicar demais o aranzel em que está encalacrado o país, vou me ater às  esferas essenciais do poder tripartite (Executivo, Legislativo e Judiciário), que hoje desfilam perante o distinto público como autêntico circo de horrores.

São tantas as estripulias cometidas pelos ocupantes sazonais das cadeiras mais importantes na composição do poder (sazonais porque felizmente morrem, se aposentam, perdem a eleição ou são cassados), que a juízo da maioria deveriam contar com o apoio de um psiquiatra de plantão para atendê-los a qualquer hora do dia ou da noite, incluindo feriados e finais de semana.

Não seria nenhum exagero porque esses privilegiados já têm a assistência de barbeiros, manicures, engraxates, motoristas e, muito deles, até as periguetes pagas pelo erário.

Minha maldade não chega a tanto, olha aí de novo a crença nas virtudes humanas, mas não me causaria espanto e nem me despertaria a menor contrariedade se alguém se atrevesse a comparar essa gente aos piores exemplos da história da humanidade. Refiro-me a algumas figurinhas carimbadas do Olimpo pousado na vastidão do planalto central, que um dia num arroubo poético o presidente Juscelino Kubitschek sonhou estar frente a frente com a gênese da grande arrancada do Brasil na direção de seu futuro glorioso.

Muitas luas se passaram e a vastidão do planalto foi invadida por aproveitadores e figuras menores da politicalha, até chegar ao ponto de não retorno atingido nos idos do outono de 2017.

Professor do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po) de Paris, Jacques Sémelin devassou em estudo avançado as personalidades intrigantes de homens como Hitler, Mussolini, Stalin e outros tiranos mais próximos do nosso tempo, para melhor entender as vicissitudes da extrema violência transmutada em massacres e genocídios. O que ele concluiu sobre tais desvios da personalidade humana está no livro Purificar e destruir (Difel, RJ, 2009), uma das leituras mais instigantes e, ao mesmo tempo, mais instrutivas sobre o estranho e gradativo processo de conturbação mental, revolta e controvérsias alarmistas desse início de século.

Sem tentar estabelecer a ligação entre lé com cré, ou ligar os pontos numerados daqueles desenhos para crianças, mesmo porque se trata de seres humanos e esse é um terreno complicadíssimo, repensar algumas das proposições de Sémelin nos faria compreender, mas não aceitar, o comportamento errático de pessoas investidas de poder, mesmo se a comparação nos levar a épocas, situações e locais distintos.

“Paranoia”: a palavra vem a calhar, estabelece Sémelin como ponto de partida da análise das representações imaginárias muito usadas pela psiquiatria na tarefa de descrever esse tipo de comportamento: “A lógica do paranoico é desvirtuada pela paixão, que o leva a uma interpretação delirante da realidade. Suas ideias se orientam por uma crença a priori. A dúvida é tão estranha ao paranoico quanto a autocrítica. Seu raciocínio, aparentemente racional, na verdade tem uma natureza hiperafetiva e, no final das contas, representa apenas a justificativa de suas tendências emocionais. O paranoico raciocina exato, mas partindo de premissas falsas”.

O modo típico de agir de certas figuras da política em seu patamar mais elevado, em nosso tempo, torna-se bastante realista à luz das palavras do intelectual francês, bastando lembrar que nas elucubrações desses atores, propinas por meio de caixa 2, dinheiro sujo auferido em licitações fraudulentas ou malas contendo milhares de reais – para sustentar campanhas eleitorais mirabolantes – são meras invenções de adversários ressentidos com a derrota.

Aliás, Sémelin acrescenta que “o paranoico imputa todas as suas dificuldades e fracassos ao outro. Ele não tem dúvidas: o mundo é que está errado ou lhe querem mal. Suas interpretações guardam uma aparência verossímil e podem suscitar a adesão de pessoas a sua volta”.

Citando Maquiavel, o autor de Purificar e destruir assinala que o célebre pensador medieval “mostrou muito bem que a arte do político não é tanto a de acreditar, mas de fazer com que acreditem”.

É nessa missão aparentemente irrealizável que se enreda o presidente Michel Temer, absolvido por quatro votos a três pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no processo de cassação da chapa Dilma-Temer movido pelo PSDB “para encher o saco do PT”, segundo o senador suspenso Aécio Neves, em outra situação paranoica por excelência da política brasileira.

Acontece que para piorar o inferno astral do presidente, nos próximos dias a Procuradoria Geral da República (PGR), onde pontifica a figura midiática de Rodrigo Janot, deverá oferecer denúncia contra Michel Temer ao Supremo Tribunal Federal, com base nas evidências absurdamente claras do recebimento por baixo do pano de bilionárias verbas para sustentar as campanhas e rechear os bolsos.

Diante de mais uma ameaça, o processo no STF, o presidente trata de fortalecer a base aliada no Congresso, especialmente na Câmara dos Deputados, que nesse caso específico tem a prerrogativa de votar a permissão para a abertura do inquérito contra o presidente Michel Temer na Suprema Corte.

Temer está convicto de que chegou a hora de colher os frutos maduros de um governo em grande medida assemelhado ao sistema parlamentarista, em que a maioria dos partidos da sustentação foi agraciada com a nomeação de ministros e dirigentes de empresas estatais, cujos votos para barrar o processo no STF serão cobrados agora, um a um.

Mais um exemplo da paranoia política brasileira atual, talvez o mais autêntico segundo os protocolos da medicina psiquiátrica, vem do PSDB que se representa no governo federal por meio de quatro ministros.  O processo pedindo a cassação da chapa Dilma-Temer foi aberto no TSE pelo presidente licenciado do partido, Aécio Neves, perdendo apenas por um voto. Isso não bastou para que a diáfana conversa de que os tucanos desembarcariam do governo se tornasse realidade.

Ora, a tucanagem continua alardeando não compactuar com a práxis do governo, mas resolve permanecer com os cargos importantes que desfruta na Esplanada dos Ministérios, para lutar pela aprovação das reformas e a recuperação da economia.

E mais, com o placet obsequioso do próprio PMDB, que em troca da permanência dos tucanos na aliança e dos votos a favor da manutenção de Temer na presidência, acena com o inestimável apoio às pretensões do partido de FHC na disputa presidencial em 2018.  Nem Freud explica.

 

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