6:46Poeta e prosador, um mestre

por Ivan Schmidt 

O veio poético fertilíssimo do ilustre curitibano nascido em Mortágua (Portugal) e desde 1954 residindo na capital paranaense ensejou a tese de doutorado defendida na Unioeste pela professora Sueli Aparecida da Costa Tomazini, em 2007, publicada sob o título Construções do imaginário na poesia de João Manuel Simões (Multideia, 2013).

Nada mais indicado para dar guarida e o reconhecimento merecido à obra de um pensador de múltiplos recursos intelectuais, que constituíram o fundamento de um imenso trabalho tanto na poesia quanto na prosa, com destaque não apenas para a métrica, mas também à crítica literária, crônicas e ensaios culturais.

Foi exatamente essa bagagem que despertou a atenção de críticos do porte de Wilson Martins, Tristão de Athayde, Temístocles Linhares, Ascendino Leite, Reinaldo Beirão, Nogueira Moutinho, Fábio Lucas, Massaud Moisés, Miguel Sanches Neto, Hélio de Freitas Puglielli e Neumar Carta Winter, entre tantos outros Brasil afora.

Pela importância desses nomes para a crítica literária, em seu conjunto, e analisados os conceitos pessoais emitidos em relação aos escritos de João Manuel Simões, pode-se avaliar com toda a propriedade o real significado literário duma obra que não serve meramente para o enlevo do próprio autor e de seus muitos leitores, mas é um motivo de orgulho para a cultura brasileira.

Bem a propósito, faço esse registro motivado pelo aparecimento de mais um livro de Simões, o segundo volume de Ensaios escolhidos (Editora e Livraria do Chain, Curitiba, 2017), com seleção e prefácio de René Ariel Dotti, por si só um selo da qualidade superior do conteúdo em questão.

Enfim, leitura obrigatória a todos quantos amam a literatura, a força e o significado das palavras, o dom percuciente de desafiar o tempo.

Em cerca de 100 ensaios que vão de Sócrates a Shakespeare, passando por Eça de Queiroz, Hermann Broch, Franz Kafka, Thomas Mann, Oswald de Andrade, Olavo Bilac e Jorge Amado – para não alongar a lista – o autor teve a rara felicidade e, acima de tudo a competência de mapear o que de mais consistente foi escrito (ou dito) especificamente ao longo do século 20.

E para justificar sua intimidade com os livros, onde foi encontrar o alicerce para sua inesgotável capacidade de produzir ideias de elevado sentido em termos de literatura e artes em geral, Simões escreveu que “o livro sabe saciar a nossa fome e matar a nossa sede”, além de ensinar, orientar, apontar caminhos, esclarecer e erradicar dúvidas.

Numa época caracterizada pelo saber efêmero, pelo excesso de informações rotuladas de pós-verdades e outros subprodutos de uma era esquizoide por excelência, vale a pena refletir sobre a advertência que jamais perderá sua veracidade: “Mas o hábito, a liturgia da leitura está em crise. Em todos os quadrantes do mundo. E faz falta. Como faz. É sempre bom ler. Ler bem, naturalmente. A leitura não é aquele vice impunu, o vício impune do que nos falou Valéry Larbaud. Se for, é o único que merece ser exercitado, fortalecido, estimulado. Até mesmo premiado”.

Com autoridade professoral, e mais, como se profetizasse, mesmo porque o ensaio a que me refiro é datado de alguns anos, quando o autor já antevia o autêntico tsunami subliterário que atualmente varre nossas livrarias, Simões ensinava que “se é bom ler, melhor ainda é reler, a releitura é sempre um reencontro programado, com um autor ou um livro que antes nos deleitaram com a magia do seu verbo, o encantamento de suas tramas e a riqueza de seus personagens”.

Instigado pela devoção ao romance policial, o que mais lê hoje em dia, no ensaio Simenon, o Balzac de Liége, cujo título tomou emprestado de André Gide, um ano depois da morte de George Simenon (1903-1989), nascido na Bélgica, mas de expressão francesa, Simões escreveu que o autor de mais de quatro centenas de romances, 80 do gênero policial, “foi, segundo dados oficiais da Unesco, o escritor mais lido do mundo no campo ficcional”, lembrando as 50 línguas em que foi traduzido e seus 500 milhões de exemplares. Simões acrescentou que os “números são espantosos” e “quase inacreditáveis”, no que tem a concordância geral dos mortais comuns.

Mesmo injustiçado pela crítica, na avaliação do intelectual curitibano, Simenon foi um dos mais importantes romancistas do nosso tempo, posto que esnobado por sua fantástica prolificidade, além do “fato de ter escrito num gênero considerado menor”, isto é, o romance policial.

A deixa foi bem aproveitada, permitindo a Simões dizer que “não é no gênero que reside a maioridade ou a menoridade eventual, mas no escritor que o utiliza. Aliás, a própria genealogia do romance policial permite que o encaremos com menos reservas. De certo modo, remonta a Crime e castigo, de Dostoievski, para mim (ainda) o maior romancista de todos os tempos (em que pese o meu respeito por Tolstoi e Balzac, Joyce e Proust ou Thomas Mann)”, sublinhando que “o gênero ganha novos contornos em Poe e Wilkie Collins, e consolida-se na obra de Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, o ancestral conspícuo de toda a ‘fauna’ detetivesca que os amantes da literatura soi disant policial bem conhecem”.

Atribuindo aos romances policiais escritos por George Simenon a condição de paradigmas do gênero, Simões argumenta que a narrativa policial “aborda, de forma esquemática, em nível mais ou menos realista ou naturalista (e até mesmo metafórico) certas temáticas e problemáticas serias”, tais como o bem e o mal, pecado e culpa, crime e punição, justiça e impunidade, angelismo e demonismo e outras mazelas que habitam o coração humano.

Em tempos da operação Lava Jato, o maior de todos os romances policiais já escritos ou pensados por autores brasileiros (que são raros nesse gênero), a constatação de João Manuel é cristalina. Diz ele que Simenon morreu, mas sua criatura, o inspetor Maigret, continua vivo. E não poderia haver maior elogio a um escritor que fez de seu oficio verdadeira  prova de resistência.

Quiseram os caminhos da literatura praticada por homens inteligentes, de pensamento avançado, que João Manuel Simões cruzasse com Ernani Reichmann, autor paranaense prolífico no campo da filosofia, “um artista que pensa”, além de grande escritor “servido por uma cultura ecumênica, e por uma superior capacidade de prospecção dos estranhos subterrâneos do pensamento, essa mina inesgotável”.

Notemos como o ambiente intelectual patrício pode ser mesquinho e arrogante ao fechar-se em suas sacristias. Poucos tiveram a ousadia de João Manuel ao propor um passar de olhos sobre o cenário filosófico brasileiro e pelos nomes que nele pontificaram – neotomistas ou positivistas, socrático-platônicos ou marxistas, bergsonianos ou hegelianos, culturalistas ou lógico empiristas – para perceber que ER se destaca “à maneira de um Himalaia solitário”.

Compara-o, pedindo a necessária vênia a Farias Brito, Tobias Barreto, Jackson de Figueiredo, Leonel Franca, Ivan Lins, Vieira Pinto, Miguel Reale, Vicente Ferreira Silva, Pontes de Miranda, Alceu Amoroso Lima, Caio Prado Junior e Luiz Washington, de quem grande parte dos leitores sem nenhum desdouro sequer ouviu falar, arriscando-se a proclamar que nenhuma obra qualitativa ou quantitativa desses luminares da nossa cultura “possui a dimensão e o valor da obra do arquiteto da Angústia subjugada”, um dos muitos livros escritos por Ernani Reichmann, que Simões identifica não apenas como o “pensador de raiz kierkegardiana ou mero conhecedor ou expert em Kierkegaard”.

Bem mais que isto assim ER aparece na intimorata conclusão simoniana: “Ele é mais que isso: é um novo Kierkegaard, talvez mais importante que o dinamarquês, do qual é uma versão corrigida e aumentada”.

Para um pensador praticamente desconhecido fora da província, que segundo Simões  “escreve no presente com a consciência de que está escrevendo para o futuro”, trata-se não só de um gesto amigável de um companheiro de andanças pela vida e pela literatura, mas a consagração que infelizmente não veio para tornar realidade a previsão de que “a obra reichmaniana tem horizontes largos pela frente. Dispõe de perspectivas ilimitadas”.

Previdente e cauteloso João Manuel Simões também dizia que o brilhantismo cultural de ER demoraria algumas décadas para ser reverenciado. Ao que me consta ainda não aconteceu.

 

 

2 ideias sobre “Poeta e prosador, um mestre

  1. Ivan Schmidt

    No final do terceiro parágrafo peço ao leitor o obséquio de acrescentar a palavra “afora”, para dar o sentido esperado. Grato.

  2. Chico Assis

    Amigo, colega de redação de O Estado do Paraná, Ivan Schmidt não se contenta em escrever bons textos. Ele dá aula. E como é bom aprender com o Ivan.

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