16:05O silêncio complacente dos senhores do pato amarelo

porLuiz Claudio Romanelli*

Da ditadura eu tenho ódio e nojo”. (Ulysses Guimarães)

No dia 7 de outubro, a Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Ponta Grossa (ACIPG) e outras 27 entidades dos Campos Gerais, publicaram uma nota pública em apoio ao general Antônio Hamilton Mourão, secretário de Finanças das Forças Armadas, que declarou apoio a uma intervenção militar no país.

“Há conforto em saber que existem brasileiros como ele, que ainda se preocupam com a nação e se disponibilizam a lutar pelo futuro. Assim, parabenizamos o General pelas suas palavras e reiteramos nosso apoio”, dizia a nota.

Um equivoco que apontem os quarteis como saída para a crise e se calem sobre o papel do empresariado brasileiro na corrupção.

O episódio me fez recordar de um fato ocorrido no final da minha adolescência, quando um militar de Ponta Grossa, que comandava o 13º Batalhão de Infantaria Blindada, a mais poderosa unidade da 5a Região Militar (Paraná e Santa Catarina), Luiz Manfredini, à época jornalista do Jornal do Brasil fez uma bombástica entrevista assim descrita no Blog do Zé Beto: “Aos 47 anos na época, 26 dos quais dedicados ao Exército, o Coronel Tarcísio Nunes Ferreira deixou clara sua “fidelidade aos ideais do movimento de 31 de março de 1964”, mas criticou o que considerava sua deformação: “Nós sa& iacute;mos de um processo totalitário que se tentava, através do governo, pela desordem, para um processo totalitário feito pelo governo, pelo excesso de ordem”. Para ele, “numa sociedade o que é preciso é a harmonia, e não a ordem”.

Na longa entrevista, o coronel defendeu a imediata abertura democrática no país, com pluripartidarismo (mas sem a participação do Partido Comunista), quebra dos instrumentos de exceção dos quais a ditadura ainda se valia, anistia e até mesmo uma assembleia constituinte. E endereçou ao presidente Ernesto Geisel críticas corrosivas. Opôs-se ao seu conceito de democracia relativa e aos poderes imperiais da Presidência”. Senti saudades da nossa capital cívica.

Na segunda-feira, (9) a Assembleia Legislativa do Paraná aprovou uma nota de repúdio contra a carta da ACIPG.

A carta dos empresários pontagrossenses revela que vivemos um momento preocupante, perigoso até, quando empresários decidem vir a publico defender intervenção militar como panaceia para nossos males. Impressionante como o presidente da ACIPG propõe um revisionismo da história ao afirmar, como o fez em entrevista à jornalista Mareli Martins, que “tudo que dizem sobre a ditadura foi escrito por jornalistas de esquerda”.

Seria cômica se não fosse trágica tamanha distorção da realidade.

A ditadura foi um período marcado pelo autoritarismo, cassação dos direitos políticos, violação dos direitos humanos e das liberdades individuais, censura e ataque à imprensa, concentração de renda, inflação descontrolada e controle do Poder Judiciário. O Ministério Público era um apêndice do Poder Executivo.

A indignação com a crise política, especialmente com a corrupção, não pode levar o país de volta ao obscurantismo e truculência da ditadura militar, mas sim estimular o aperfeiçoamento de nossa democracia.

Infelizmente, estamos vivendo um tempo do enfraquecimento dos partidos políticos, com a consequente judicialização das questões políticas e sociais, em claro desrespeito às garantias do devido processo legal e ao Estado Democrático de Direito. Aliás, no Brasil delator virou uma categoria social. Goza de um certo status, é tratado como alguém que decidiu contar o que sabe da vida dos outros. Se é verdade, meia verdade ou meia mentira isso não importa. Não é visto pela mídia como um criminoso, mas sim como alguém que colabora para dar verossimilhança a versão que foi construída pelos acus adores.

Em vez de defender intervenção militar, creio que está mais do que na hora dos empresários começarem a refletir sobre a complacência e a omissão que vem mantendo em relação às revelações das investigações de corrupção no país. Corrupção no Brasil é muito mais ampla e complexa do a que se vê por meio da operação Lava a Jato.

Pesquisa feita pela UFMG/Vox Populi mostra que quase um em cada quatro brasileiros (23%) afirma que dar dinheiro a um guarda para evitar uma multa não chega a ser um ato corrupto.

“O fato é que muitas pessoas não acham que o desvio privado seja corrupção, só levam em conta a corrupção no ambiente público”. diz o promotor de Justiça Jairo Cruz Moreira. Ele é coordenador nacional da campanha do Ministério Público “O que você tem a ver com a corrupção”, que pretende mostrar como atitudes que muitos consideram normal são, na verdade, um desvirtuamento ético.

Moreira listou dez atitudes que os brasileiros costumam tomar e que, por vezes, nem percebem que se trata de corrupção.

Confira a lista:

– Não dar nota fiscal;

– Não declarar Imposto de Renda;

– Tentar subornar o guarda para evitar multas;

– Falsificar carteirinha de estudante;

– Dar/aceitar troco errado;

– Roubar TV a cabo;

– Sonegar imposto;

– Comprar produtos falsificados

furar fila

– No trabalho, bater ponto pelo colega;

– Falsificar assinaturas;

– Apresentar atestado médico falso para faltar ao trabalho.

E assim, poderíamos fazer uma imensa lista de pequenas corrupções.

Sim, porque como nos ensinou o magistrado Antônio Di Pietro, que desencadeou a Operação Mãos Limpas, na Itália, a corrupção é um câncer que ataca da mesma forma quem dá e quem recebe o dinheiro.

“Não se pode dizer que o crime de corrupção seja mais grave para quem recebe o dinheiro do que para quem o dá”, disse ele, há mais de 15 anos.

“Numa sociedade capitalista só se pode aceitar o princípio do livre mercado se houver transparência nos negócios. Só se pode aceitar os princípios da democracia ocidental se ela for transparente política e institucionalmente”, disse o juiz.

Onde estão as “entidades representantes das classes produtivas” que, com tanta ousadia clamam por intervenção militar como solução para a corrupção, mas não tem a mesma coragem para também publicamente admitir e apontar a existência de frutos podres entre seus pares- aqueles que corromperam, pagaram propina?

Por que o empresariado se omite e se cala ou aponta o dedo apenas para os políticos, fazendo de conta que na outra ponta não existe um empresário que corrompeu e é tão corrupto como quem foi corrompido?

Onde estão os senhores do pato amarelo que não fazem uma autocritica e admitem que, entre os que se assentam em seus conselhos, há os que adotaram praticas de negócios lamentáveis e com transparência financeira condenável. Só os políticos vão pagar esse pato?

Boa Semana! Paz&Bem!

*Luiz Cláudio Romanelli, advogado e especialista em gestão urbana, ex-secretário da Habitação, ex-presidente da Cohapar, e ex-secretário do Trabalho, é deputado pelo PSB e líder do governo na Assembleia Legislativa do Paraná.

5 ideias sobre “O silêncio complacente dos senhores do pato amarelo

  1. Sergio Silvestre

    Pois é deputado está certíssima a lista,só faltou furar pedágio,mas começamos pelos gatos-net,minha conta era de 180 reais,em seis meses ela estava em 306 reais,ameacei parar eles abaixaram o preço para 180 de novo,e quando o guarda rompe o lacre do seu carro a meia noite,e quando vocês deputados na calada da noite sobem o IPVA EM 45%,eu já vi repórter famoso de Londrina fabricando carteirinhas para os amigos,eu dou nota fiscal eletrônica e sabe que eu levo 10% dela e o governo 320%estou doido para arrumar uma formula para não pagar nada.,e quando o governo quer imposto de renda do seu prejuizo,sabia deputado que o governo cobra isso?Bater ponto pra colega ,ser pianista é mesma coisa deputado,voces que ensinaram o povo fazer isso.como vou saber que é falsificado quando eu compro o produto em frente da delegacia.Mas gostei do texto,pena que nós pequenos corruptos e sonegadores não chegamos ao estagio das malas abarrotadas de notas de cem,do envio de milhões por doleiros,das verbas gordas de escolas que não foram feitas e dos desmandos como aqueles deputados do Camburão que num estalo de dedos deixaram mais 7 bilhões para deleite do governador.Muito bom seu texto,revigorante.

  2. Gumercindo Saraiva

    CALMA SR. DEPUTADO; Vossa Excelência, como ex-líder do Requiãp e atual líder do Richa 2 tem toda a moral do mundo para criticar quem produz. Afinal a sua Assembléia produz só coisas boas para a população como Diários Secretos, Pacotaços aprovados no deixa pra lá, pancadaria encima de professores e outras bondades….
    Agora fica posando de vestal da democracia. QUANTO CUSTA ESTA DEMOCRACIA BRASILEIRA QUE NOS ENFIOU NESTE BURACO SEM SAÍDA ?
    QUAL É SUA PROPOSTA ? DEIXAR TUDO COMO ESTÁ ?
    ACIPG TEM RAZÃO. Que venham os milicos. Vocês políticos estão vencidos.

  3. Rogério Distéfano

    Calma, gente, o deputado foi honesto, no sentido de que o texto é de redação própria, saiu da mão e do cérebro do autor, nessa ordem. Viesse de um assessor seria melhor escrito, bem enxuto e teria alguma qualidade na redação e no ordenamento das (poucas) ideias ali presentes.

    Só não afirmo que é sincero e que o deputado fala com convicção – que aí seria demais, considerados os antecedentes do autor.

    Para não dizer que não falei de flores, o título é de um primor – ‘o silêncio complacente dos senhores do pato amarelo’ – digno do melhor momento de, quem sabe, um Vargas Llosa.

  4. jose

    Poxa silvestre, quanta mágoa com o seu conterrâneo…só porque ele deixou o pmdb velho de guerra do requiao?
    Ah, bons tempos aqueles quando ele furava pedágio e você aplaudida, naquele tempo você até gostava dele, fazia campanha e tudo mais…mas eram outros tempos, vocês estavam do mesmo lado, então tudo era permitido não é mesmo? Sim, nesta época você e ele lambiam o saco do então governador e agora decrépito senador mamona; ele (romanelli) mudou de lado e não mudou em nada e você continua o mesmo hipócrita de sempre.
    Aliás, esclarece uma dúvida: você continua cobrando 10% pelas notas frias? É o que deu a entender no seu comentário.

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