22:09O primeiro a morrer

por Ruy Castro

Raul Seixas, o roqueiro, faria 70 anos amanhã. Esperam-se comemorações em todos os níveis, terráqueo, cósmico e ectoplásmico, pelos quais sua jurisdição se espalhou desde sua morte em agosto de 1989, aos 44 anos. Um ano e meio antes, em fevereiro de 1988, ele era apenas um entre 15 sujeitos recém-saídos de clínicas de dependência química, em São Paulo, que passaram a se reunir semanalmente na casa de um deles. Eu era outro.

Raul e eu fomos vizinhos e contemporâneos de internação em duas clínicas de Cotia, a 30 km de São Paulo. Por coincidência, entramos e saímos na mesma época. Um dos nossos, Reinaldo, conhecia alguns da outra turma e resolveu promover encontros em que pudéssemos trocar experiências e nos ajudarmos na coisa mais difícil quando se deixa de beber –que é continuar sem beber.

Entre os que nos reuníamos na casa de Reinaldo, recordo-me de um fazendeiro, um industrial, um executivo da Philip Morris, um operário, um boa-pinta sem profissão, um diretor de teatro e Raul. Todos entre 30 e 50 anos, casados e alcoólatras, alguns com uma segunda droga na história: cocaína, ácido, bolinhas. A de Raul era éter.

Em comum entre nós, antes da internação, a vida indo para o buraco: profissão, carreira, casamento, saúde e amigos –vivíamos intoxicados, anêmicos, inchados, apáticos e imundos. Mas, naquelas reuniões, já parecíamos outros: saudáveis, corados, barbeados, tomando litros de Coca-Cola e confiantes em que iríamos recuperar tudo que havíamos perdido.

Menos um. Raul ficava pelos cantos, acabrunhado, múrmure, alheio à atmosfera de esperança e otimismo. Quase todos ali recaíram; a maioria conseguiu se recuperar, outros morreram. Apenas dois nunca mais beberam, eu e o diretor de teatro. Raul foi o primeiro a retomar as substâncias, entregar os pontos e morrer.

*Publicado na Folha de S.Paulo

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