7:22O Aloar Ribeiro que conheci

por Jorge Eduardo

Lá se vai mais um. Eu me considerava amigo do Aloar Ribeiro, que conheci em 1976, na Gazeta do Povo, quando ele era editor de esportes e eu, repórter da geral, louquinho pra ser chamado pra banda dele. Acabei levado pelo Luis Augusto Xavier pro Estadinho, nove meses depois, ganhando R$ 1,2 mil a menos. Mais tarde, já no Estadão, cansei de explorá-lo quando não conseguia acompanhar todos os clubes. Agradecia colocando-o entre os eleitores dos melhores do ano. Ele nunca reclamou do uso e abuso.

A matéria da Gazeta é até bacaninha, mas não disse algumas coisas:

Aloar era possivelmente o maior colecionador que conheci de material sobre o futebol, e do futebol paranaense em particular. Pastas e pastas de recortes, fitas gravadas e até gols que narrou gravados em disco, aqueles de cera das rádios de antigamente. Espero que o Dias Lopes, que aos 76 vende saúde, converse com a viúva e leve o arquivo embora.

A matéria não fala nada da viúva, que conheci tempos atrás, e nem que eles não tiveram filhos. A Gazeta, esse belo jornal, não informou do que Aloar morreu.

O apelido do Aloar (acho que cunhado pelo Luiz Affonso Alves de Camargo) era Javali. Que ele odiava.

Na primeira excursão do Coxa à Europa, em 1969, ele seria o jornalista convidado (havia uma lei que obrigava equipes esportivas a levar um jornalista em excursão, vê se pode!). Pois o Evangelino convidou nosso Aloar na frente de todos os colegas e inventou de fazer uma brincadeira (soube por ele e o Chinês confirmou a mim anos depois): “Aloar, você está convidado a viajar conosco, mas tem uma coisa: precisa comprar um novo par de sapatos, pois este seu já está bem batidinho pra você andar pela Europa.” Baixou o espírito de Javali no repórter: “Os sapatos são meus e os troco quando bem entender. Pode convidar outro.” O Chinês pediu desculpas, explicou que estava brincando – e nada. Foi o Vinícius Coelho (que, acho, iria de qualquer jeito, tal sua ligação com o Evangelino) com a delegação. Aloar cobriu a excursão por aqui mesmo, com seu mesmo par de velhos sapatos.

Eu o encontrava sempre aqui no Cristo Rei – no supermercado e no Morgenau, aonde ele vinha, quase sempre de táxi, buscar marmita. Morava num grande apê na Afonso Camargo, distante algumas quadras. Na primeira vez me apresentei e ele se lembrou. Mas já estava meio esquecido, pois das outras vezes me cumprimentava, conversávamos e ele nem sabia quem eu era.

Foi dos últimos editores de esportes das antigas, quando se publicava futebol amador, noticiário da FPF e até turfe (o repórter era o Ivo Chiarello). Não era nenhum gênio, mas a edição sempre saía redondinha. Seu Sancho Panza era o manuara irascível Irandy Ferreira.

Naqueles tempos era comum nossos colegas fazerem parte da caixinha dos clubes que cobriam. Nunca ouvi nada sobre o Javali, que vivia modestamente com seu salário de editor. A essa gente ele tinha um comentário: “Nhec, nhec, my pernation.” O principal alvejado era o editor de um jornal concorrente, que fazia da editoria um balcão de picaretagem, mas, que engraçado, nunca cedeu às pressões do Aníbal Curi.

Faltou a Gazeta contar que, por obra da direção moderna do jornal, Aloar foi aposentado do jornal contra a vontade. Morreu com essa dor na alma. Um dia ele me contou, orgulhoso, que o outro dono da editora, Mariano Lemansky, dia sim, dia também, ameaçava os sócios: “Ou vocês melhoram essa merda do esporte ou vou buscar o Aloar na casa dele.” Era a pequena compensação, que ele saboreava para a mágoa que nunca o abandonou. A mesma mágoa carregam nossos queridos Francisco Camargo e Armindo Humberto Berri. Que vivam até os 87, pelo menos.

Uma ideia sobre “O Aloar Ribeiro que conheci

  1. Casemiro Brandão

    : “Nhec, nhec, my pernation.” O principal alvejado era o editor de um jornal concorrente, que fazia da editoria um balcão de picaretagem, mas, que engraçado, nunca cedeu às pressões do Aníbal Curi.

    Falta nomes. Editores da mordida, do jabá.
    Por isso Onaireves Moura mandou tanto tempo no futebol paranito.

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