6:09Nossos ídolos são de barro e derretem

por Célio Heitor Guimarães 

Se não é praga de madrinha, deve ser maldição lançada por aqueles bravos habitantes desta terra, que foram “pacificados”, “civilizados” e “catequisados” pelos brancos invasores, no tempo do descobrimento. O fato é que o Brasil parece ser um território destinado a não ter “mocinhos”. Só “bandidos” e assemelhados. Além de pobres e ingênuos reféns, que somos nós, coadjuvantes desta farsa cotidiana. Entre os “bandidos”, incluem-se os oportunistas, os falsos moralistas e os paladinos de araque. Que não demoram muito a se revelar. Sem nenhum constrangimento, frise-se. E se posicionam em ambos os lados da porfia.

O doutor Marcelo Bretas, juiz federal da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, é um dos três principais mosqueteiros na cruzada contra os corruptos da administração pública nacional, dilapidadores do erário e usurpadores do poder público – mais rigoroso até que o nosso Sérgio Moro, segundo alguns.

Pois o ínclito, ético e rígido doutor Bretas acaba de anunciar-se indignado com o questionamento de que está sendo alvo na Ouvidoria da Justiça Federal pelo recebimento do auxílio-moradia, aquela excrescência autoconcedida pela magistratura nacional. O doutor reside em imóvel próprio. Mas não é isso que o estaria impedindo de receber o pagamento do benefício. É que a esposa dele, também magistrada, já o recebe e o Conselho Nacional de Justiça, ainda que aprove a bondade, não permite o duplo pagamento.

Isso deixou o austero e inflexível doutor Bretas exasperado: “O direito em questão foi assegurado a cada magistrado individualmente” – sustenta.

Em seguida, com a arrogância própria dos “mocinhos” apanhados em flagrante delito, valeu-se da ironia nas redes sociais: “Pois é, tenho esse ‘estranho’ hábito. Sempre que penso ter direito a algo eu vou à Justiça e peço”. E ainda: “Talvez devesse ficar chorando num canto ou pegar escondido ou à força, Mas, como tenho medo de merecer algum castigo, peço na Justiça o meu direito”.

Não, excelência, não desperdice as vossas lágrimas. Quem deve chorar somos nós, a patuleia bestificada e idiotizada que, na falta de heróis de verdade, cultua falsos paladinos, ídolos de barro que derretem ao primeiro chuvisco.

É claro que o destemido homem da toga ganhou, de pronto, a solidariedade da Ajuferjes (Associação dos Juízes Federais do Rio de Janeiro e Espírito Santo), que apregoou a existência de uma campanha para “desmoralizar” e “denegrir a honra dos Juízes federais”:

“A constante campanha para tentar desmoralizar os juízes federais brasileiros pretende não só subtrair um direito como denegrir a honra dos que hoje mais se empenham em coibir o maior dos males da administração pública brasileira, a corrupção organizada e voraz” – sentenciou o juiz Fabrício Fernandes de Castro, presidente da associação.

Tamanha estultice equivale às afirmações da senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, que chama os magistrados de “desqualificados” e “infames”,  afirma existir  “uma trama premeditada por parte do Judiciário contra Lula e o PT” e denuncia  “ativismo político dentro do TRF-4” e a formação de “um cartel destinado a condenar Lula”.

Quanto ao malfadado “auxílio-moradia”, mascarado de “verba indenizatória”, hoje na casa dos R$ 4.300 mensais, nasceu no Judiciário e, com insana rapidez, espalhou-se pelo Ministério Público, pelos tribunais de Contas e parcelas significativas dos poderes Executivo e Legislativo. O objetivo é um só: encorpar os salários.

Segundo nota publicada outro dia neste blog, reproduzindo informação do jornalista Carlos Brichmann, “o Brasil paga [hoje] auxílio-moradia a 88 juízes de tribunais superiores, nove ministros do Tribunal de Contas da União, 553 conselheiros de tribunais de contas de Estados e Municípios, 14.882 juízes, 2.381 desembargadores, 2.390 procuradores do Ministério público Federal, 10.687 procuradores dos ministérios públicos estaduais”. Um total de R$ 1 bilhão e 580 milhões por ano!

São essas pessoas que nos julgam! E há quem justifique o recebimento afirmando, sem nenhum pejo, que o “auxílio” é necessário para “manter a dignidade dos juízes”. Mal sabe o infeliz que é exatamente por causa dele que a dignidade da magistratura tem ido pelo ralo.

3 ideias sobre “Nossos ídolos são de barro e derretem

  1. Sergio Silvestre

    Juiz recebe retroativos na faixa de 8.5 milhões,outros 3 milhões e assim por diante,Moro recebe em Dezembro salários e penduricalhos de 117 mil reais,mas e ai , não é vantagem indevida se aproveitando do cargo e do corporativismo para roubar o erário?
    É normal alguém usar o cargo para receber milhões retroativos?
    Vantagem indevida não é crime?
    Ganhos acima do teto não é propina?:
    Não da cadeia?
    Muito bem,quem vai condena-los,quem vai prende-los,o Papa.?

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