6:39Elogio ao Banal

De Fernando Muniz 

Gosto de vê-los correr. Saem levantando tufos de terra assim que me veem com os baldes d´água e torrões de açúcar. Vêm ligeiro e, quase rente à cerca, passam a trotar. Parecem adestrados!

Pego uns torrões no bolso e deixo os baldes no chão. Fazem uma festa. Mas não uso eles nas coisas da fazenda; ah, não, esses aí estão aposentados. Comprei os três num leilão. Ninguém quis bater o meu lance; nem o pessoal do esfoladouro, que ficou brabo comigo, afinal são uns bichos grandes. A minha mulher ficou braba também, quando apareci com eles. Muito braba. Queria me internar. Agora já se acostumou.

Quando os meus meninos chegaram, pareciam uns trapos. Sujos, cascos esfiapados, cheios de carrapatos e cobertos de feridas nos lombos. E seus olhos eram de uma tristeza de dar dó. Acho que foram os olhos deles que me fizeram dar o lance. Quanta coisa devem ter visto nessa vida de bestas de carga!

Meus netos adoram vir aqui; não perdem um final de semana. Para desespero dos pais, cheios de compromissos e outras coisas mais importantes em suas agendas.

E nem faço questão que os pais fiquem; acho que muito menos os meninos querem também. Sabe que eu, eles e os meus netos nos entendemos bem demais? É uma farra só. Todo mundo vira criança ou potrinho de novo.

Acho até que essa nossa bagunça mantém os meninos vivos; esse leilão salvou a vida deles, ah sim, salvou mesmo.

E a mim também.

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