19:06Do melhor repórter do Brasil sobre um mestre do jornalismo

“Tá malz, ô meu!”Para um repórter da revista “Realidade” —que abrigava os mais bem pagos e, talvez, mais paparicados jornalistas do Brasil nos anos 60—, ouvir essa expressão, com seu estranho plural em z, era sinal de trampo indesejado. No texto apresentado depois de um, dois meses de trabalho, não dava para “mexer” —ele precisava ser reescrito. “Mas, Sérgio, fazer tudo de novo?” —e não era certo que uma única reconstrução seria suficiente.

Sérgio de Souza era sereno, falava baixo, com um sorriso de meio lábio, ar quase infantil. Era fácil de amar, mas rigoroso no serviço. “Sua história é boa, não podemos perder no detalhe. Melhor reescrever.” Sérgio era o editor de texto de “Realidade” e tinha um modo novo de trabalhar a escrita das reportagens. Tendo como arma apenas um lápis nº 1, ele pinçava as palavras para cortar, realçar ou substituir, na busca da clareza, da precisão.

Na imprensa brasileira de então, não se cuidava da palavra. Uma reforma dos jornais do Rio tinha implantado o copidesque, de inspiração americana: um redator reescrevia o original dos repórteres, de forma que o jornal inteiro parecia escrito por um só (e bom) redator. A fórmula influenciou as Redações do país todo, mas, com o tempo, cansou.

Antecessora de “Veja”, “Realidade” foi o maior fenômeno editorial dos anos 60: em poucos meses, atingiu 500 mil exemplares. Atraía sobretudo os jovens. Sua receita vinha de 11 ou 12 grandes reportagens, todas com qualidade literária e cada uma com o jeito próprio de escrever do jornalista.

Era essa a inovação de Sérgio de Souza: ele mexia no texto dos outros, buscando comunicabilidade e emoção, mas sem tirar dele o brilho do autor, o estilo.

Outra força da revista, que Sérgio também vigiava, era a vivência. A ninguém se pedia tratar de um assunto que não tivesse vivenciado, para não incorrer na armadilha —muito perigosa nos jornais e noticiários eletrônicos— de o repórter ter de escrever sobre um tema que não entendia direito.

Curvado sobre a mesa, em silêncio, Sérgio usava os dedos longos e finos, de mãos compridas, para ir assinalando o texto, a lápis. Quando envolvia uma palavra num círculo de grafite, ela estava condenada, precisava achar a palavra certa.

Também não era boa notícia quando riscava uma frase, um parágrafo, um trecho inteiro. Só se via alguma bulha na sala quando quebrava a ponta do lápis: “Alguém pegou o apontador?”.

Aquele trabalho —melhorar o texto para que outros brilhassem enquanto seu nome nem aparecia na reportagem— dava ideia de outra medida de Sérgio de Souza: a generosidade. Gastava o salário antes de terminar o mês, sempre acudindo um ou outro. Sua casa era abrigo para quem estivesse sofrendo de amor, de angústia profissional ou da incompreensão do mundo.

Saiu da editora Abril porque quis, em protesto contra alguma bobagem da empresa em relação à revista. Seus companheiros de chefia —Paulo Patarra e Woyle Guimarães— saíram também. A Redação quase toda foi junto e, nesse dia, “Realidade” começou a morrer.

Sérgio foi depois trabalhar na Globo, na Record, na Tupi, mas não se firmava. O sonho era fazer uma revista de esquerda, de alto nível. Com Narciso Kalili, Hamilton Almeida, Georges Bourdoukan e outros, abriu publicações de resistência à ditadura. Fechavam uma revista, ele abria outra. A última foi “Caros Amigos”, uma ideia de Alberto Dines que, enquanto esteve em sua mão, teve edições primorosas.

Sérgio morreu em 2008, com 73 anos, de pobreza. Estava sem plano de saúde, mas não contara em casa. Quando pediu ajuda, correram atrás de hospital, mas não deu mais tempo.

Outro dia, fazendo uma reportagem para o Globo Rural sobre Raduan Nassar, na fazenda que ele doou para a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), passei por uma estátua. Fui conferir e lá estava: “Sérgio de Souza, jornalista”. Abaixo, uma frase de Nassar: “No mundo real que está aí, Sérgio de Souza era uma ficção”.

Eu me pergunto se a comunidade do campus da UFSCar tem ideia de que aquele é o busto de um mártir do jornalismo brasileiro.

*JOSÉ HAMILTON RIBEIRO, 82, é repórter especial da TV Globo e autor, entre outros livros, de “Gosto da Guerra” sobre sua experiência no Vietnã, “Pantanal, Amor-Baguá” e “Música Caipira, as 270 Maiores Modas”. Começou seu jornalismo na Folha e foi da equipe inicial de “Realidade”.

* Publicado na Folha de S.Paulo

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