16:22Confessando o inconfessável

por Ruy Castro

Nelson Rodrigues chegou da rua e sua mulher lhe deu a notícia: “Sabe quem morreu? O Guimarães Rosa. O rádio acabou de dar”. Arriscou: “Desastre?”. E ela: “Coração”. Nelson foi para a varanda e, contemplando o perfil noturno dos prédios de Ipanema, constatou horrorizado que aquela notícia lhe dava uma secreta, inconfessável satisfação. Sim, ele tinha inveja do sucesso, do prestígio e até da pose de Guimarães Rosa. Inveja literária.

Bem, como ficamos sabendo disto? Porque o próprio Nelson nos contou, em sua coluna “Confissões de Nelson Rodrigues”, que ele começara a publicar no “Globo” naqueles dias de 1967. Um amigo meu indignou-se: “Como alguém pode ter um sentimento tão baixo?”. Outros, como eu, viram a coisa de modo diferente: o sentimento era, de fato, baixo, típico do ser humano. Mas a disposição de admiti-lo (e por escrito, para centenas de milhares de leitores) revelava grandeza. Quantos são capazes de confessar o inconfessável?

Essa história de Nelson me ocorreu ao saber da morte do ministro Teori Zavascki. Ela aconteceu às vésperas da homologação pelo juiz das delações dos executivos da Odebrecht, capazes de comprometer centenas de políticos. Perguntei-me quantos destes políticos não sentiram a mesma secreta e inconfessável satisfação ao ouvir a notícia da queda do avião. E quantos ainda, entre estes, teriam a dignidade de admiti-la publicamente, como Nelson Rodrigues.

Não que a morte de Teori vá aliviá-los de alguma maneira. As delações já foram tomadas, os processos continuarão correndo e, espera-se, o rigor de Teori terá impregnado cada membro da equipe que continuar a investigação.

Naquela mesma noite, de pé na varanda, ao pensar na integridade literária de Guimarães Rosa, Nelson converteu-se a ele e sentiu-se intimamente um pulha por ter reagido daquela forma à sua morte.

*Publicado na Folha de S.Paulo

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