6:27Bom dia!

Assim como se você se isolasse sob copas de árvores, de frente para um mar de água doce e se desligasse do que está ali perto, a menos de cem quilômetros. De repente você tem de voltar, gira a chave da ignição do motor do carro e o cheiro da gasolina começa a queimar seus pulmões. E esse cheiro fica entranhado mesmo depois que você voltou ao destino e demora alguns dias para ele se transformar em coisa natural. E já não existe mais silêncio, o esquilo subindo a árvore, a sinfonia das cigarras entre o fim da tarde e começo da noite, a explosão repentina das flores amarelas de uma única árvore no meio do verde, uma reunião de garças na outra margem, o reflexo das nuvens coloridas no espelho de água, a neblina pintando um outro quadro na mesma paisagem, um pássaro andando num galho fino como se fosse um equilibrista seguro a 30 metros de altura, uma brisa fria entrando pelos poros ao se abrir uma janela. A vida corre sob outro script, o de sempre. Aperta-se um botão, uma tela se acende, procura-se notícias como se fossem alimentos. E eles são, na maioria, estragados, pois é assim. O atropelamento, o conchavo no Planalto, a denúncia do Fantástico, a proposta de mudança da lei a partir disso, notícias de economia que a ninguenzada não entende, a intolerância racial, sexual, religiosa, a eleição vem aí, o teatro está aqui, o topete do craque que vende tudo, não dragaram a lama do porto, as tramas que continuam secretas, os podres guardados nas gavetas para os momentos certos, os tubarões que continuam com sede. E chegamos lá com as jóias da Tifanys no Batel enquanto os craquelentos continuam morrendo escondidos na cidade que separa o lixo e os ônibus tinindo de novos circulando também têm sinais escritos a prego nas janelas. Aumentam os números de restaurantes e chefs de primeira qualidade e o Vampiro continua escondido e produzindo. Bandas tocam nas garagens, literatura brota pelas rachaduras do concreto, a arte continua sendo feita, jornalismo com olhos que metem medo e mudam o ritmo da dança também, mas por enquanto o mar de buzinas, de lanternas vermelhas, de faróis brancos e amarelos passa por cima de tudo. Mas existem as crianças, as nossas, as deles, as de todos – e quando se olha para elas, que vieram do lugar para onde todos nós vamos, acontece o milagre da esperança e é como se estivéssemos de novo naquele canto de onde acabamos de chegar.

PS: Sob efeito do texto de Robert Penn Warren

3 ideias sobre “Bom dia!

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