6:27Baseado na rua

por Sergio Brandão

Já estou atrasado para minha última consulta no dentista. Caminho com pressa e, na minha frente, também no mesmo passo, um cara alinhado, boa pinta. Não muito próximo dele sinto um cheiro forte de maconha. Imediatamente olho em sua mão e vejo algo queimando, soltando fumaça. Aperto o passo, me aproximo e vejo que é mesmo um baseado. Em sentido contrário, do mesmo lado da calçada, vem uma senhora que, ao ver o cidadão, diminui o passo, abre um baita sorriso como se já o conhecesse . Eles se cumprimentam, se beijam, falam algo rapidamente e seguem cada um o seu caminho. A breve parada  me deixa mais próximo dele e do cheiro de maconha. Assim que se despede da mulher, retoma a sua “pira”. Entre eu e ele  também caminham várias pessoas. Percebo que ninguém se importa com o cheiro, só eu. Nem a senhora que brevemente trocou umas palavras com ele me pareceu indignada com a coisa. Aliás, não é com o cheiro que me incomodo. O cheiro até que é bom, mas a cara de pau do sujeito, fazendo aquilo ali, no meio da rua, sem se importar com nada? Na minha época lembro que a gente se escondia nos lugares mais absurdos para fazer isso. Mesmo assim, quando era flagrado, dava “cana”. Na rua?  Assim como o cara estava fazendo? Nem pensar! Não lembro de alguém que tenha ousado tanto assim. Só lembro que assim, como ele, não podia, mas os tempos são outros – e agora pode. Não importa mais se incomoda os outros, não importa se a polícia te pegar, nada mais importa. Hoje, em qualquer lugar, você pode fumar a sua maconha  sem ser incomodado. A cena é mais uma entre tantas que vejo há anos – e parece que a cada dia vejo mais. Aquilo me faz lembrar que anos atrás peitei um garotão que queimava seu fuminho numa praça, sentado tranquilo e calmo. Na passagem pelo garotão eu disse: “Cara de pau, heim?” Ele me olhou  e disse que não estava fazendo nada de mais. Deu um sorriso cínico e, ainda me olhando, deu uma tragada bem profunda. Parei, voltei e disse pra ele: “Cara, você vai fumar a vida inteira e não vai conseguir somar nem ¼ dos baseados que fumei. Pra você conseguir isso, fumar aqui, nesta paz, sem ter que se preocupar com nada, talvez deva isso também a mim. Porque me escondi durante a minha adolescência inteira fazendo isso. Na minha época isso era vergonhoso, criminoso, coisa de gente perigosa, que não tinha compromisso nenhum com a vida. Lembro que quando decidi que ia parar, parei. Nunca mais fumei. Festejei e festejo isso sempre. Lembro que o que mais me intrigava era que diziam exatamente tudo que devem dizer pra vocês, hoje. Que não faz mal, que relaxa, que fumar de vez em quando é até bom. Só que quando eu fumava, me sentia mal. Incapaz de algumas coisas. Lembro de uma taquicardia que me preocupava. Depois de anos, comecei a ficar burro. Não rendia o mesmo nem no trabalho e nem na escola. Gostava de dormir, e quanto menos responsabilidade, melhor. Tenho filhos e não quero que façam o mesmo que você que eu fiz”.  O cara continuou fumando e o negão na minha frente também. Chegamos num cruzamento. Parei.  O negão atravessa a rua. Fiquei observando. Ele segue em direção a uma estação tubo. Como quem apaga um cigarro, joga a bagana no chão, pisa nela com a ponta do pé, lembrando a clássica cena de cinema. Claro, penso eu. Dentro do ônibus não pode. Sempre teve a placa advertindo que ali não pode.

7 ideias sobre “Baseado na rua

  1. Amorim

    Mas quanta preocupação com o vício alheio. Uma demanda um tanto histérica, não acha? Igual a minha em vir comentar este post.

  2. Sonolento

    Espantado?Revoltado? Que tal discutir as liberdades individuais, as preferências, o direito inalienável de dispor do livre arbítrio? Pense: o coletivo sofre mais com os “maconheiros” ou com os assassinos do trânsito?

  3. Barata

    Acho que o pior é a bebida, bebuns mexendo com a mulherada, fazendo arruaça. Maconheiros nunca me perturbaram, não sei de nenhum acidente causado por maconheiro, também estou mudando de ideia sobre a maconha.

  4. Miguel

    O título deveria ser: “O boa pinta e o negão”, pra escancarar de vez a contradição que é esse texto. Ele tem todo direito de se incomodar. Mas ao mesmo tempo que reclama de quem fuma na praça, acha que os que fumam têm que agradecer a ele por isso. Ao mesmo tempo que diz que quando quis parar, parou, assume que os outros não podem parar também quando quiserem.

  5. Coronel Perseu Jacutingassa

    Anestesia é para fracos. Quero ver enfrentar a vida. A derrota é consequencia…depois não reclamem..

  6. MP

    Geralmente não comento. Mas o texto está bom pra caralho… Agora o que chama a atenção mesmo, são os comentários acima. Típicos de pessoas fechadas nos seus mundinhos. Põe a cara pra fora e veja o que está acontecendo de verdade. Não existe nada pior do que as drogas. Licitas ou não. Fazer de conta que as baforadas não estão debaixo do nosso nariz é idiota! Tem que falar, tem que expor. E pro cara que acha que é fácil deixar: convido a dar uma volta pela Paula Gomes ou na Quinta do Sol. Vai ver se é fácil. Por isso a preocupação com a prevenção. Não há tratamento definitivo!

  7. Parreiras Rodrigues

    Em 1969, dei um tapa na macaca.

    Osvaldão fez uma bagana e mandou que eu chupasse (epa?) e segurasse.

    De imediato, nadica.

    Subindo a av. Gustavo Brigagão, comecei a sentir os dentes crescerem e a boca escancarar.

    Andando, os passos aumentavam de comprimento e em slow-motion.

    Cheguei em casa, o prato sortido que minha mãe fazia, eu o repeti quatro vezes, para espanto da dona Nenê.

    “Qui qui deu nocê”. perguntou.

    Voltei pro escritório do serviço de água, a Codeisa, onde eu era sub-diretor e em quinze minutos fechei o balanço do ano no qual eu havia me batido uma semana, sem sucesso.

    Os números saltavam à minha frente e eu os tabulava na Facit.

    Mas, não me animei.

    Parei ali e dai em diante fico só vendo a moçada pitar.

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