6:41Após operações de limpeza, crack migra para a periferia em Curitiba

Da Folha de S.Paulo, em reportagem de Estelita Hass Carazzai

O terreno fica a poucos metros de uma escola municipal de Curitiba. Na rua ao lado, crianças carregam mochilas e seguem para casa. Não são nem cinco da tarde quando, acima do mato alto, brota um pequeno rastro de fumaça: um cachimbo de crack acabou de ser aceso.

A capital paranaense não tem uma cracolândia São Paulo. Mas nos últimos anos, com a revitalização e o policiamento intensivo de áreas centrais, usuários passaram do centro à periferia.

“Aqui é dia e noite, mas eu fumo escondido porque não quero dar exemplo pra ninguém”, diz, em meio ao matagal, Rogério Soares dos Santos, 46, que foi segurança de shopping e é usuário de crack há dez anos. Ao seu lado, barracas de lona abrigam outros usuários, num terreno junto a um centro de assistência social, no bairro do Parolin.

Fora do centro, a droga é mais barata (R$ 5 a pedra, contra R$ 10 no centro), há menos policiamento e fica-se mais à vontade para fumar, segundo o relato de usuários ouvidos pela Folha.

“No centro [a pedra] é matadinha, aqui é gigantona”, diz Ricardo (alguns nomes foram alterados, a pedido dos entrevistados), que veste moletom, boné e uma tornozeleira eletrônica sobre o pé. “E tem mais concorrência”, afirma, sobre os traficantes locais.

Os usuários se reúnem em frente a casas abandonadas, em terrenos com mato alto ou mesmo em pequenas tendas de lona. Formam pequenos grupos, usam a droga e, depois, migram para outro ponto de consumo. “É igual morcego: vão embora e depois voltam”, diz Márcia, 51, usuária de crack há oito anos.

Moradores se queixam da falta de policiamento. “Lá no centro tem câmera, tem gente em cima. Aqui, não”, comenta o líder comunitário Edson do Parolin, suplente de vereador pelo PSDB, que diz que o movimento aumentou nos últimos meses.

À frente da prefeitura desde janeiro, o prefeito Rafael Greca (PMN) promoveu uma ação recente para combater a criação de cracolândias no centro. Chamada de Operação Saturno, a ação criou anéis de proteção na área central, que orientam o policiamento da Guarda Municipal.

“Não vamos deixar que essa região vire uma cracolândia. Nosso centro histórico é magnífico e vamos devolvê-lo aos curitibanos”, disse Greca, na ocasião. Meses antes, a gestão começou a lavar os calçadões do centro. A área vem ganhando câmeras de segurança e mais iluminação ao longo das últimas gestões.

O secretário de Defesa Social, Algacir Mikalovski, diz que a operação vai se estender a toda a cidade, inclusive aos bairros. Começou pelo centro em função da maior concentração de crimes, diz.

Não foi identificado um aumento do consumo de drogas nos bairros após a ação, segundo o secretário –que defende a repressão como uma arma no combate à drogadição. “Não dá para trabalhar com foco apenas em tratamento, de forma reativa. Tem que ser preventivo”. “A repressão é uma política pública e um dever legal, para retirar traficantes de circulação.”

A atual gestão transferiu a política antidrogas da secretaria da Saúde para a Defesa Social. Para Mikalovski, uma decisão acertada, que agrega ações de prevenção e tratamento, numa atuação mais completa. Para o psiquiatra Marcelo Kimati, que coordenou a área na gestão passada, uma política “higienista e de militarização”, que não vai resolver o problema.

“A questão não é falta de policiamento. É falta de políticas públicas amplas”, diz a promotora Cristina Corso Ruaro, coordenadora de enfrentamento às drogas no Ministério Público do Paraná, que defende ações de acesso à educação, emprego e moradia, em conjunto com o tratamento e a repressão ao tráfico. A prefeitura afirma estar seguindo esse caminho.

TRATAMENTO

Nos últimos anos, o município deslocou unidades de atendimento em saúde mental, os Caps (Centros de Atenção Psicossocial), para os bairros com maior consumo da droga. Leitos de internação foram implantados nesses locais, que servem como porta de entrada para o tratamento, e equipes de atendimento circulam pelas ruas.

“O acesso ao serviço melhorou e estamos fazendo esforços para descentralizar”, diz Flávia Adachi, coordenadora de Saúde Mental em Curitiba. Hoje, na rede pública, cerca de 500 pacientes estão em tratamento contra o crack na cidade –quase 40% do total de atendimentos. Mas, para conseguir um internamento, a espera é de 15 a 20 dias.

“Só tem vaga para ficar durante o dia. Aí não adianta, porque seis da tarde eu estou na rua e fumando”, afirma Juciano Rodrigues Rocha, 33, usuário de crack que vive no Parolin. Ele diz procurar vaga para a mulher, Evelyn Pires de Lima, 19, há meses, sem sucesso. Usuária de crack desde os 11, já foi internada quatro vezes, mas sempre recaiu. “Para sair, a gente tem que mudar hábitos, lugares e amizades. É difícil”, diz ela.

Adachi admite que leitos para mulheres são mais raros, mas a demanda também é. Hoje, há uma mulher na fila por internação em função do uso de drogas –homens, são aproximadamente 15. Depois da entrevista à Folha, Lima foi abordada por uma equipe e aceitou tratamento no Caps, mas ainda sem internação.

Para Adachi, o internamento não é a solução para todos os usuários. Ela defende a política de redução de danos praticada nos Caps, e diz que é preciso respeitar a singularidade dos pacientes e atuar junto à família. Além disso, defende a atuação conjunta com outros órgãos, como assistência social.

A prefeitura diz estar em processo de “alinhamento” da política antidrogas entre os diversos órgãos. A prioridade, neste momento, é combater a formação de cracolândias.

3 ideias sobre “Após operações de limpeza, crack migra para a periferia em Curitiba

  1. Sergio Silvestre

    Pois é,precisam dos eleitores em transe senão perdem o curral,mas o Boçosonaro vai dar jeito,disse que vai comprar grandes trituradores.

  2. Casemiro Brandão

    “A questão não é falta de policiamento. É falta de políticas públicas amplas”, diz a promotora Cristina Corso Ruaro, coordenadora de enfrentamento às drogas no Ministério Público do Paraná, que defende ações de acesso à educação, emprego e moradia, em conjunto com o tratamento e a repressão ao tráfico….’

    MP sendo o defensor das cracolandias pelo Brasil afora.

    Um traficante demorou 32 anos para ser preso.

    32 anos para prenderem o Cabeça Branca.

    Deu para aposentar UMA geração de promotores e policiais.

    Parem de discurso…

    https://oglobo.globo.com/brasil/policia-federal-prende-cabeca-branca-um-dos-maiores-traficantes-da-america-do-sul-21544281

  3. Ademar Luiz Vieira

    Devemos mandar os usuários de drogas (todas) para a casa dessa promotora já que ela é boazinha.

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