8:49A grande aventura do Zé Luis

Ele nasceu no Sítio São José e, a cinco quilômetros dali, Graciliano Ramos estava caminhando para ser conhecido como um dos grandes da literatura brasileira. Ambos, secos. Um semi-analfabeto. Outro, literato. O sítio continua lá. A casa do Velho Graça, também, hoje museu.
Foi no sítio que um dos filhos do Zé, que era José da Silva mas, como sempre, naquelas bandas das Alagoas, se transformou no Zé (do) Luis, porque Luis era o pai dele. Como o escritor ele nunca pegou no cabo da enxada, porque não nasceu pra isso. Suas mãos de dedos de pianista continuaram lisas até o fim dos dias, muitos anos depois, ali mesmo na Palmeira dos Índios – e mais perto da casa do Graça, agora um museu. Meu Zé morou em pensão em Botafogo, conheceu no Rio de Janeiro a Zefa com quem foi casar em Alagoas, depois voltaram e ele se entusiasmou pelo boom industrial de São Paulo, início da década de 50. Nunca foi de se explicar pela mudança da Cidade Maravilhosa, capital do país, para aquelas quebradas onde virou operário. Muitos anos depois, falou – e disse: “Cismei”. Perfeito. Sempre foi assim, e agora dá para ter certeza que, apesar dos medos, encarava, ia, e segurava o tranco. Calçou seu primeiro sapato aos 15 anos porque, na pressão para ir à roça, subiu no lombo de uma mula e foi vender leitõezinhos nas feiras dos municípios vizinhos. Morou numa meia água de fundos com quarto, sala e uma cozinha onde só cabia o fogão. Levava marmita para o trabalho. Voltava e ai se visse filho dele na rua. Seu olhar era mais poderoso que a força dos deuses. Não falava, não sorria, torcia para o Santos de Pelé sentado ao lado de um radinho onde cofiava desesperado o bigode. Nunca foi de passear nem de ver jogo no Pacaembu. Talvez fossem os maiores medos. Do que? Só depois um dos filhos descobriu, porque passou pela mesma coisa. Quando cismou, construiu sua própria casa. Sim, Zelê, Zona Leste de São Paulo, a maior cidade nordestina do país. Parentes distantes lhe apresentaram um projeto de arquiteto, profissão futura de seu primeiro neto. Ele andou. Fez do jeito que queria. Já tinha o segundo filho, e os dois herdeiros receberam de presente um quarto próprio – assim como a casa tinha azulejo na cozinha, grande, e no banheiro, dentro de casa – avanço da civilização para quem, lá no sítio, ia fazer no mato. Era cuidado pela mulher, que o chamava de “Filhinho”. A retribuição foi o máximo de carinho demonstrado na frente dos filhos: “Filhinha”. Voltou a ser garçom, virou pequeno comerciante – e quando cismou que estava na hora, fechou o ciclo de todo pau de arara que se preze: voltou para sua terra, onde comprou casa na cidade, há poucas quadras da de Graciliano, e tinha como prazer ir ao sítio herdado dos pais todo dia. Contada assim, sua aventura na vida parece leve. Foi a mais pesada e difícil que um ser humano pode suportar. Zé Luis era um depressivo. Sempre foi. No Rio de Janeiro pensou ter encontrado o caminho para o alívio da dor que nem sabia o que era. Bebeu. E quase foi para o vinagre por conta do início de uma úlcera. Um médico recomendou que parasse. Mostrou então de que material humano era feito. Parou. Por 20 anos. Voltou porque assim é a doença do alcoolismo. Depois de uma cirurgia em São Paulo, perguntou ao médico se poderia tomar uns goles. Se afundou na Jurubeba, aquela. Só parou depois porque, de volta à sua Palmeira dos Índios, parou de andar por conta de uma doença degenerativa – e ele só bebia em bar. Assim como seus filhos, que herdaram a dor na alma e a procura para aliviá-la. Os filhos estão conseguindo o controle há mais de vinte anos. E foi a partir do momento da retomada do controle da própria vida que começaram a enxergar e entender o pai – e a serem gratos por tudo que ele fez. Porque, do jeito dele, deu tudo que podia para eles conseguirem não sofrer tanto. Deu a sobrevivência, o estudo, a oportunidade de desenvolver talentos e, mais que tudo, poder enxergar. No dia em que morreu, enquanto ele era levado de maca da enfermaria para a UTI, um deles, o mais velho, se abaixou para dizer alguma coisa em seu ouvido. Era uma declaração que resumia tudo: “Te amo, pai”.

3 ideias sobre “A grande aventura do Zé Luis

  1. Ivan Schmidt

    Se a “grande aventura de Zé Luís” fosse uma peça de ficção, creio que Graciliano gostaria de tê-la assinado…

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