por Carlos Castelo
Todo temporal escolhe um homem para servir de exemplo. Naquela noite, o eleito foi Dirceu, vendedor de pneus. Não vendia ilusões, apenas pneus: redondos, pretos, resistentes. Gostava de dizer que conhecia a alma das ruas. Ironia. Naquela noite mal conseguiria vencer o caminho entre a zona oeste de São Paulo e o apartamento onde Matilde o esperava.
A chuva começou ainda no fim da tarde, dessas que parecem rasgar uma caixa-d’água no céu. No rádio falavam em alagamentos, árvores caídas, linhas interrompidas. O trem atrasou. Cinco minutos. Quinze. Depois o painel passou a exibir aquelas duas palavras que definem o caos: sem previsão.
Dirceu aguardou.
Quando desistiu da plataforma, lançou-se ao ônibus, já lotado. Espremido entre uma senhora de guarda-chuva pingando e um rapaz abraçado a uma televisão de cinquenta e cinco polegadas, teve a impressão de embarcar num navio condenado.
Foi aí que começou sua odisseia.
Cada quarteirão escondia um obstáculo. Um córrego transformado em mar Egeu. Um caminhão levantando muralhas de água. Um fiscal de trânsito gesticulando inutilmente, como o sacerdote de um deus aposentado. O ônibus avançava aos solavancos, como se remasse.
O celular vibrou.
“O Clóvis bebeu de novo. Está batendo na porta.”
Clóvis, o vizinho viúvo, descobria na terceira cachaça uma vocação para pretendente de Penélope. No caso aqui, Matilde.
Então, o ônibus morreu.
O motorista anunciou que não seguiria viagem. Os passageiros desceram resignados, náufragos desembarcando para outro naufrágio.
Dirceu começou a caminhar. Água pelos tornozelos. Depois pelos joelhos. Sacolas boiando como medusas. Sofás navegando rua abaixo.
Na primeira esquina surgiu uma moto. O capacete de viseira espelhada transformava o piloto num gigante de um único olho.
— Passa o celular.
Dirceu mostrou o aparelho apagado, afogado pela chuva. O motociclista olhou com desprezo e desapareceu na enxurrada. O ciclope urbano perdera o interesse por um herói sem tesouro.
Mais adiante, um boteco iluminado resistia ao temporal. O cheiro de torresmo e cerveja chamava os passantes com uma melodia irresistível. Bastava entrar, esperar a chuva baixar, esquecer Matilde por uma hora. As sereias da cidade não cantam. Fritam torresmo.
Ele seguiu.
À esquerda, a correnteza engolia carros. À direita, moças sob uma marquise observavam quem passava com curiosidade excessiva. Entre a água e elas, Dirceu escolheu a água.
Chegou ao prédio quase meia-noite. Faltara luz. Subiu os degraus no escuro, o coração batendo ao avistar aquela Ítaca da zona leste.
No corredor encontrou Clóvis caído no chão, abraçado à samambaia do condomínio, roncando como um animal vencido.
Matilde abriu a porta.
— Já passou.
Dirceu olhou para o vizinho. Pensou em chutá-lo. Depois chamar a polícia. Lembrou-se de todas as guerras que travara para chegar até ali.
No fim, apenas entrou em casa e trancou a porta.
Descobriu então o que A Odisseia nunca contou: um herói não precisa eliminar seus detratores. Apenas chegar tarde o bastante para perceber que o maior inimigo sempre é o caminho.
*Publicada na Fórum