por Carlos Castelo
Existe um limite para a sinceridade humana. E esse limite é o primeiro encontro.
No primeiro encontro ninguém diz que ronca, que votou errado três eleições seguidas ou que coleciona potes de sorvete vazios para guardar parafusos. O primeiro encontro é um processo seletivo. A diferença é que ambos os candidatos mentem no currículo.
Eu também menti. Naquela manhã eu quebrara, sem querer, um copo na cozinha. Varri o chão, passei um pano e recolhi tudo.
Em algum momento, atravessando a casa de meias, um microcaco deve ter entrado na minha pele. Mas não notei, o vidro é paciente: prefere esperar uma ocasião importante para se manifestar.
Entrei no restaurante caminhando como um homem equilibrado. Era falso. Dentro do sapato esquerdo havia a farpa de vidro, em forma de vírgula, comandando toda a minha personalidade.
É impressionante o poder político das coisas pequenas. Um grão de areia convence uma ostra a fabricar uma pérola. Uma bactéria paralisa um país. Uma farpa muda o caráter de um homem.
Até então eu pretendia parecer espirituoso. Cinco passos depois, meu maior projeto de vida era me sentar.
Ela levantou-se para me cumprimentar. Abracei-a tentando distribuir o peso do corpo para a perna direita. Descobri que um abraço apaixonado pode parecer uma manobra de guindaste.
Sentamo-nos. Ela perguntou:
— Como foi o dia?
Quis responder que tinha sido ótimo até o pé assumir o controle da situação.
Mas disse:
— Normal.
Há uma hierarquia nas dores. As grandes despertam solidariedade. As pequenas, irritação. Se eu dissesse que estava sofrendo por causa de uma farpa, ela teria duas opções: rir ou imaginar que eu era um homem criado em estufa.
Continuei representando. O curioso é que encenar dor é fácil. Difícil é dramatizar a aflição.
A conversa seguia. Ela falava. Eu concordava em prestações.
Toda inteligência depende da circulação do sangue. Quando o sangue resolve se concentrar num único ponto do pé, o cérebro entra em contenção de despesas.
Pedi licença. E no banheiro executei uma operação delicada.
Sapato fora. Meia retirada. Inspeção completa. Nada.
A farpa tinha a ética dos bons criminosos: nunca estava na cena do crime.
Voltei à mesa. Ela sorriu.
— Tudo bem?
Essa é uma pergunta perigosa. Quando alguém diz “tudo bem?”, espera ouvir “sim”. Nunca notei ninguém responder “não, estou em franca decadência”.
Respondi:
— Tudo ótimo.
Sentei-me.
A farpa reapareceu imediatamente. Foi então que compreendi uma coisa. A vida adulta consiste em passar tempo demais fingindo conforto. Chamamos isso de elegância. Usamos sapatos que apertam, gravatas que sufocam, cadeiras desconfortáveis, sorrisos diplomáticos e opiniões moderadas. Tudo para convencer os outros de que está tudo bem
Pensando melhor, a civilização talvez seja apenas isto mesmo: uma multidão de pessoas escondendo suas farpas. E chamando isso de sociabilidade.
(Publicado no Estadão)