por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
As três senhoras da Comissão Pastoral atravessaram a rua como quem estava prestes a conquistar mais uma fiel para o rebanho. Vinham saudar a vizinha nova, esclarecer os princípios morais da cidadezinha e garantir um discreto aumento no banco da missa. Do lado de cá da porta, no entanto, deram de cara com uma figura bicho-grilo total: saia longa que começava abaixo do umbigo, colares, pés no chão, o clima riponga dos anos 70 e a maresia da capital ainda impregnada na pele.
As beatas sorriram e ensaiaram o convite, crentes de que a moça se enquadraria no modelito local. Lurdinha, com a inocência de quem achava que o mundo inteiro vivia no “paz e amor”, soltou um simples e desarmante:
— Obrigada, não é a minha praia.
Selado o primeiro desastre diplomático da aventura. Aquele vilarejo era só o começo de uma colisão com o Brasil profundo, aquele que a urbanidade dela desconhecia. E a recusa da igreja seria a menor das confusões. E lá foi Lurdinha para outra cidade, esta ainda menor. Veio o pior: o choque cultural era gigantesco, fora que ela sentiu a maracutaia armada e partiu para a denúncia de corrupção. Não deu outra: o jeito foi fugir no meio da noite, acelerando na poeira para não levar bala de coronel.
Na cidade seguinte, porém, o perigo deu lugar ao tudo de bom e do melhor. Naquele fim de mundo, o social girava em torno do clube: tardes à beira da piscina, carteado e o ritmo preguiçoso de quem só queria aproveitar. A antiga bicho-grilo logo virou figura querida — com direito a muita festa, comes e bebes e até “pegar emprestado” milho na roça alheia para fazer a pamonha, que tinha toda uma dinâmica.
Para Lurdinha, tudo era uma gostosa brincadeira. Por isso, quando sugeriram que ela se batizasse para acalmar as velhinhas da cidade, ela topou na hora, só pela farra e pelo afeto daquela gente.
A mesma moça de saia de chita e miçangas atravessou a paróquia. Diante do padre e sob o olhar divertido dos amigos do clube, recebeu a água benta na cabeça em uma cerimônia solene e engraçadíssima. Para ela, o sagrado e o profano dançavam no mesmo ritmo: o que importava era a festa no interior.
Os pais jamais souberam de uma única linha dessa odisséia. Morreram sem desconfiar das pamonhas e muito menos do batismo de ocasião. A história ficou guardada como o tesouro de quem viveu sem pedir licença — e sem perder a graça.
A vida inteira, eterna noite / Sempre a primeira /Festa do interior (Festa do Interior -Abel Silva e Moraes Moreira)