
Com cara e jeitão de bom amigo, apesar de meu trauma de águas profundas (a começar por um metro de fundura), o Guamá me levou à Ilha do Combu, habitada por pouco mais de 200 famílias ribeirinhas, serpenteada por igarapés, com comes e bebes turísticos às suas margens, além de pequenas igrejas, plantações de cacau e os segredos e a delícia do mato puro.
Na ilha, há uma atração à parte, a fábrica de chocolate da ribeirinha Izete Costa, conhecida por Dona Nena, que patenteou a marca “Filha do Combu” à sua principal iguaria. Ao mostrar o processo artesanal da fábrica, ela conta, de olhos úmidos, da visita ao local do presidente Lula há pouco mais de um ano. Em fotos, lá está ele a mexer o chocolate em caldeiras. A Ilha do Combu mexe com a gente, sei lá os porquês.
Na volta a Belém, minha tremedeira emergiu. Uma chuva pesada fez o condutor, que já estava deixando o igarapé, retornar o barco e encostar às margens da ilha por uma eternidade para meu gosto. Quando a água dos céus fez de conta que havia sossegado, embicou o barco para a cidade e para meu medo esquecer a beleza que conhecera na ilha, como o gosto do tambaqui que comi. Tremi até aportar, ensopado pela chuva escura, em terra firme da ansiada Belém.
Navegar em outras águas, como, por exemplo, à Ilha de Marajó, com três horas de minha covardia líquida à flor da pele, ficou para outra vez. Contam que há 39 ilhas em Belém. Eu não as contei. Nem mesmo Mosqueiro, famoso balneário grudado na capital paraense, aonde se pode chegar por 70 quilômetros em terra firme, conheci dessa vez. As urbanidades turísticas e, dizem, as delícias gastronômicas e etílicas da Baia do Guajará além dos contornos do Guamá, as vi apenas de relance.
O Guamá (“rio que chove”, segundo o vocabulário indígena), Acará (“escamoso”) e Moju (“rio das cobras”) e, claro, a baia do Guajará (“antigos povos indígenas da Ilha de Marajó”) engordam todo dia, pois em Belém um verbo é sagrado: chover. Não é necessário previsão meteorológica; chove, sem restar pingo de dúvida. As ruas asfaltadas são, em sua maioria, bem mais altas do que o nível das calçadas e com bordas abauladas para facilitar o escoamento de água. Noé teria um mar veneziano em plena Amazônia para passear com seu navio.
Às margens do Guamá, na margem direita da Baía de Guajará, a Estação das Docas é uma joia da cidade, meio quilômetro de orla fluvial do antigo porto de Belém, construído em 1909.
O ancoradouro veio sendo revitalizado há uns 30 anos e inaugurado em maio de 2025 para a realização da COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas). Virou o xodó, com três enormes barracões portuários onde se come e bebe, se consome em lojas de vários quilates e se passeia, de preferência à noite, quando veste um certo charme. Os três ex-armazéns foram transformados em um multi-espaço, com gastronomia, cultura, moda e eventos (teatro, shows musicais, exposições etc.).
No local, foi instalado o teatro da Caixa Cultural. Nele, assistimos a “As Amazônias”, um show musical audiovisual, juntando vozes femininas e singulares, que reúne três grandes vozes do Norte do Brasil: Aíla e a indígena Djuena Tikuna, que são do Amazonas, e Patrícia Bastos, do Amapá, com a participação não menos empolgante do saxofonista Daniel Serrão. A apresentação une tradição indígena, matizes afro-amazônicas e projeções visuais imersivas muito significativas.
Acontece que meu coração ficou fervendo, diria Caetano. Reafirmo, e assino em cartório, que as Docas ficaram um brinco, não só pelas instalações, mas por seus jardins, parquetes, monumentos, ruas com paralelepípedos e por aí vai.
Nos ex-armazéns, que ainda mantém detalhes dos antigos prédios portuários, há comércio, dezenas de lojas, bares, cafés e restaurantes de olhos gordos não só nos turistas, mas em muitos belenenses que trabalham nos bairros próximos. Me lambuzei de sorvetes feitos com frutas regionais e, detalhe importante, sem açúcar porque minha endiabrada diabetes não permite.
Sou o menos indicado do mundo para falar sobre gastronomia, gostos e preferências. As filigranas de pratos finos ou cardápios sofisticados não me atraem ou fazem mudar de rota ou rotina. Nos inúmeros restaurantes das Docas, claro, a comida regional brilha nos menus. Comigo, que não sou muito chegado a peixes, o tal do “Filhote”, um bagre de água doce, passou grelhado, aparentemente apetitoso, cheio de fama, mas nadando fora do meu prato.
Devem ter gastado uma grana pesada para a revitalização das Docas. Mas, ficou uma lindeza, com cara e corpo de História e alma modernista. Elas viraram um brinco, com atrações tanto diurnas quanto noturnas, razão para os turistas que vieram para a COP30 babar. E beber.