6:29A imagem mais bonita da Copa do Mundo

por Joanna Moura, na FSP

Nico Williams entregou a medalha à mãe, que atravessou o deserto do Saara há 30 anos, quando estava grávida. Cena aconteceu minutos depois de Donald Trump participar da cerimônia de premiação

Copa do Mundo de 2026 me trouxe mais raiva do que alegrias. Não sou particularmente ligada ao futebol e confesso não entender muito bem o fervor com que algumas pessoas torcem para um ou outro time, se apegam a um escudo, a uma camisa.

A final entre Espanha e Argentina foi particularmente cruel para o meu nível de cortisol. Ver os jogadores argentinos distribuírem empurrões, puxões e carrinhos maldosos contando com a complacência do árbitro fez meu sangue subir.

Me vi gritando xingamentos em frente ao aparelho de televisão e torcendo fervorosamente para a seleção espanhola, gritando com entusiasmo nomes de jogadores que, imediatamente antes do jogo, eu não sabia que existiam.

A Espanha ganhou e eu celebrei a vitória do bem sobre o mal com a ingenuidade que só a superficialidade desses momentos é capaz de proporcionar. Mas fui arrancada do meu êxtase justiceiro ao ver aquele time que jogou tão bonito, que não cedeu às provocações do adversário, receber a medalha e em seguida ser congratulado por nada mais nada menos do que Donald Trump, talvez um dos “jogadores” mais sujos, mais inescrupulosos, mais arrogantes que o mundo já viu.

O sangue, que havia finalmente voltado à temperatura normal no apito final do juiz, voltou a subir ao ver aquele homem asqueroso clamar para si o protagonismo daquela vitória. Me contentei em buscar atentamente qualquer sinal de desprezo no rosto de cada jogador que recebia os cumprimentos do presidente dos EUA.

Até que chegou a vez de Nico Williams, um dos nomes que até 120 minutos antes eu desconhecia. Nico recebeu a medalha de forma polida, mas o que fez em seguida ficará marcado para mim como a cena mais bonita e simbólica desta Copa.

Com o ouro no peito, Nico, campeão do mundo, deixou a comemoração com os colegas e andou em direção à arquibancada. Ao avistar sua mãe, encostada na grade que a separava do campo, entregou a medalha a ela. E foi assim que uma nova personagem me foi apresentada nesta Copa do Mundo: María Comfort Arthuer.

Quase 30 anos antes, ela e o marido deixaram Gana em direção à Espanha em busca de uma vida melhor. Cruzaram cerca de 4 mil quilômetros a pé pelo deserto do Saara, o maior deserto quente do mundo.

María caminhou descalça, enfrentou a fome, a sede e traficantes de pessoas, viu companheiros morrerem pelo caminho e ainda precisou escalar a cerca que separa o Marrocos de Melilla, enclave espanhol no norte da África. Ao chegar, foi detida e quase deportada. Só depois descobriu que estava grávida de Iñaki, irmão mais velho de Nico e, hoje, também jogador de futebol.

Como não amar, portanto, a ironia daquela sequência de imagens? Poucos minutos antes, Donald Trump, o misógino anti-imigração, participava da entrega das medalhas. Agora, uma delas estava no peito de uma mulher negra, africana e imigrante, que atravessou um deserto e pulou uma cerca para chegar à Europa, tudo isso trazendo no ventre um bebê que nasceu já em outro país.

Só de lembrar, a cena me leva às lágrimas. Mais do que o atleta que superou todos os outros, Nico Williams venceu a probabilidade de seu destino. E, mais bonito do que a vitória em si, recusou o papel do homem que venceu sozinho, dividindo o protagonismo e reconhecendo a mulher com quem aquela vitória havia realmente começado.

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