7:39Guacamole sem abacate!

Por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

O forte cheiro veio na própria madrugada em que os meninos decidiram tomar de assalto a cozinha. Era da cebola cortada,que começou a flutuar pela casa, anunciando que Gabriel, com seus mais de 1,80 metro de audácia juvenil, e seus amigos haviam se lançado numa noite temática: culinária mexicana.
Passados dois dias, no aconchego de uma conversa corriqueira, vovó Naninha decidiu puxar o fio daquela incursão gastronômica:
— Como é que foi aquele dia com a comida mexicana? O que é que vocês fizeram? Deu tudo certo ?
Gabriel abriu um sorriso meio sem jeito e soltou a primeira grande surpresa da noite:
— Foi guacamole, vovó… Mas a gente só comeu o, como é que é o nome? O vinagrete.
Naninha piscou, incrédula. Gabriel e cebola sempre caminharam em universos paralelos que nunca se cruzavam.
— Mas você não come cebola?!
— Pois é… — ele desconversou, como quem aceita o sacrifício do paladar em nome da moçada, já que todos gostavam do tempero.
Mas o mistério que realmente desafiava a lógica culinária era outro. Naninha insistiu:
— E cadê o abacate nessa história? Como ficou a guaca?
— Então, vovó… O abacate estava muito duro. E daí eu bati no abacate, soquei o abacate, tentei até amassar o abacate.
A comédia se desenhava na cabeça da avó: um guri daquele tamanho travando um combate físico, um duelo de murros contra uma fruta indestrutível. Vendo que na força bruta não ia, a galera apelou para o improviso: o abacate foi embrulhado em papel laminado e jogado na água quente. Não adiantou nada.
O golpe fatal veio com o liquidificador. Quando Gabriel olhou para o copo do eletrodoméstico, o cenário era de total incompreensão:
— Parecia que eu estava vendo queijo ralado verde, vovó!
Desesperado, o jovem chef ainda tentou espremer aquela farofa com as mãos. A massa seca escapava pelos vãos dos dedos, mas não cedia. Incomível. Derrotados, restou aos meninos jantar vinagrete puro.
Muitas gargalhadas, mas no fim das contas, a teimosia dos 17 anos só provou que não adianta forçar o que não está pronto. Naquela madrugada, o abacateiro simplesmente não acatou o ato:
(Abacateiro, teu recolhimento é justamente o significado / Da palavra temporão / Enquanto o tempo não trouxer teu abacate / Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão ( Refazenda – Gilberto Gil)

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