Por Lea Oksenberg no Vigília Comunica
A disputa pelo terceiro lugar numa Copa do Mundo tem fama de jogo sem sabor. Mas, se a gente olhar bem, tem uma dinâmica saudável ali: é a hora de respirar. Não há a corda esticada da finalíssima nem a obrigação de ser campeão. Os jogadores entram em campo sabendo que o pior já passou, e quem assiste ganha um refresco.
Com o controle remoto na mão, a perspectiva muda. Essas paixões são irracionais. Mas com o Brasil eliminado, a gente experimenta a rara neutralidade de não torcer por ninguém. É um alívio quase culpado. Sem estômago embrulhado ou coração na boca. Resta o prazer de ver a bola rolar e torcer, sem compromisso, por quem jogar melhor.
Sem cobrança. E não a do gramado. A ausência de cobrança acontece aqui dentro. Aquela urgência que a gente se impõe na rotina: a obrigação de vencer o tempo todo, de tomar partido, de ser uma metamorfose ambulante em vez de carregar aquela velha opinião formada sobre tudo.
Lá fora, o mundo continua um rolo só. A cidade com seu ritmo bruto, as notícias pesadas na mesa, as angústias da história e da política que a gente carrega nas costas todos os dias. A vida não dá trégua. Mas do lado de cá da tela, esse futebol morno funciona como um escudo necessário.
As grandes decisões e as tensões da vida real continuam ali, esperando o jogo acabar. Elas não vão embora. Mas, por uma tarde, a gente se dá o direito de olhar para o picolé chupado e não exigir nada dele, nem de nós mesmos. Silenciar a cobrança e aceitar o morno, às vezes, é a única vitória possível.