8:35A camisa de Pelé em 1958 e o leilão de R$ 25 milhões na Sotheby’s

Pelé, em 1958, na Suécia, nos ombros de Gylmar, e Didi: o fim do complexo de vira-lata (AP/Imageplus)

Camisa de futebol azul royal, gola polo e decote em V, com escudo da CBD (Confederação Brasileira de Desportos) no peito esquerdo, pendurada em cabide de madeira sobre fundo escuroO manto azul da primeira Copa vencida pelo Brasil: 25 milhões de reais (Sotheby’s/Divulgação)

por Fabio Altman, na Veja

O leilão da camisa de Pelé na Sotheby’s conta apenas parte da história do futebol

Saber a diferença de valores da 10 do rei, a de Maradona em 1986 e a de Messi em 2022, é interessante – mas o futebol vai muito além da batida de martelo

Lá se vão 68 anos, o tempo de uma eternidade no futebol. A fotografia é uma das imagens mais bonitas da primeira Copa do Mundo vencida pelo Brasil, em 1958, na Suécia. Depois da final contra a Suécia, com vitória por 5 a 2, Pelé chora nos ombros do goleiro Gylmar, de braço esquerdo erguido. Didi, o “príncipe etíope”, na definição de Nelson Rodrigues, compõe a cena de beleza indizível. Era um 29 de junho, dia de São Pedro. Dez dias depois, João Gilberto entraria no estúdio da Odeon, na Cinelândia carioca, para gravar Chega de Saudade. Chega de saudade, porque aquela camisa vestida pelo rei – azul, embora a memória seja tingida de preto e branco – acaba de ser levada à leilão pela Sotheby’s, em Nova York. A peça foi vendida a 4,9 milhões de dólares, o equivalente a 25 milhões de reais. O comprador permanece no anonimato.

Temos a mania – e o prazer, sim – de tentar fazer comparações, de medir o que não pode ser medido, de querer saber se houve alguém maior do que Pelé no futebol (não), se Maradona chegou lá, se Messi anda ciscando na área. São perguntas que talvez nunca possam ser respondidas, daí a graça de fazê-las. Pelé ou Messi? Messi ou Maradona? Maradona ou Pelé? Cabe então uma brincadeira, um exercício, uma espécie de “índice do martelo”, que ajuda a iluminar alguma coisa – embora a distância entre épocas faça toda a diferença. No tempo de Pelé não havia transmissão pela televisão e, claro, muito menos pela turma que grita no YouTube. Com Maradona, o momento da tecnologia era outro – com TV, por óbvio, mas não com a audiência de hoje. Para Messi, na cacofonia das redes, é tudo ao mesmo tempo, agora. Estabelecidas as distinções, cada qual em sua era, a dinheirama posta na Sotheby’s põe os personagens na balança.

A 10 de Pelé em 1958, que não se perca o fio da meada, vale 25 milhões de reais. Em 2022, o uniforme usado por Maradona na Copa do Mundo de 1986, quando marcou o gol da “Mão de Deus” contra a Inglaterra, além daquele outro, o mais bonito de todos os tempos, o “gol do século”, foi vendido por 9,3 milhões de dólares – algo em torno de 47,5 milhões de reais. Em dezembro do ano passado, um lote de 6 camisas da Argentina usados por Messi na Copa do Catar chegou a 7,8 milhões de dólares, ou 40 milhões de reais – eram meia dúzia de unidades, e não apenas uma.

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