6:08Não fossem mudanças climáticas, renda do agro seria R$ 200 bi maior

por Braulio Borges, na FSP

Estudo do BID mostra que variáveis climáticas atuaram como freio da produtividade agrícola de 1985 a 2017. Secas severas, quebras de safra recorrentes e enchentes históricas no RS marcam aceleração da deterioração após 2018

Um estudo recém-publicado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), de autoria de Steven Helfand e coautores, traz uma das radiografias mais completas já feitas da produtividade da agropecuária brasileira.

Com base nos dados municipais dos Censos Agropecuários de 1985 a 2017, os autores estimam que a PTF (Produtividade Total dos Fatores) do agro brasileiro cresceu 1,6% ao ano no período, respondendo por cerca de 60% da expansão do produto do setor.

Trata-se de um desempenho notável, que transformou o Brasil em um dos quatro maiores produtores e exportadores agrícolas do mundo.

O estudo decompõe esse crescimento da PTF em seus determinantes. E aqui há uma constatação importante para o debate sobre políticas públicas: os investimentos em P&D e em educação foram fatores cruciais de aceleração dos ganhos de produtividade.

A face mais visível disso é a Embrapa, criada em 1973, que viabilizou a tropicalização de cultivares e a ocupação produtiva do cerrado —justamente o bioma no qual, segundo o estudo, produto e PTF cresceram mais rapidamente. Poucas políticas públicas ou industriais brasileiras exibem retorno social tão elevado e tão bem documentado.

Mas a decomposição revela também o vilão da história: as variáveis climáticas atuaram sistematicamente como freio da produtividade ao longo dessas três décadas.

Fiz um exercício simples com esses números: extrapolando até 2025 o acúmulo das perdas anuais estimadas pelo estudo de 1985 a 2017, chego à conclusão de que, não fossem as mudanças climáticas, a renda gerada pela agropecuária brasileira (o PIB do setor) seria hoje cerca de R$ 200 bilhões maior —algo próximo de 1,5% do PIB total do país.

Primeiro porque a extrapolação assume que o dano climático médio observado em 1985-2017 se manteve constante depois disso.

Não foi o que ocorreu: de 2018 em diante houve nítida aceleração da deterioração do clima, com secas severas no Centro-Sul e na amazônia, quebras de safra recorrentes e as enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024.

Segundo porque o impacto sobre a economia brasileira como um todo vai muito além da porteira. Almeida (2022), em tese defendida na UnB, estimou em 2,43 o Multiplicador Total de Produção Truncado da agropecuária —ou seja, cada real de produção do setor movimenta quase um real e meio adicional no restante da economia, via insumos, agroindústria, transportes e serviços.

Aplicado à perda de renda do agro, o prejuízo agregado facilmente ultrapassaria os R$ 200 bilhões, aproximando-se de meio trilhão de reais em termos de produção econômica.

Como apontei em coluna recente nesta Folha, eventos desse tipo estão se tornando mais frequentes e severos justamente por conta das mudanças climáticas: houve apenas quatro Super El Niños em quase 150 anos, e o intervalo entre eles vem encurtando dramaticamente.

Ignorar essa realidade custará caro —e a conta, como mostram os números acima, já está sendo paga.

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