por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Cidinha viajou para um cruzeiro, mas ela se preparou para uma posse real. Meses antes de o navio zarpar, o guarda-roupa já estava todo planejado. Tratava-se de uma coleção de roupas novas, cuidadosamente escolhida para cada dia no mar. Cidinha flutuava em expectativas.
E então, chegou a grande noite. O jantar especial do comandante ou um show de gala daqueles em que o capricho no visual é obrigatório. No camarote, o ritual: maquiagem impecável, perfume importado e o momento mais esperado — o vestido. Não era um vestido qualquer. Era “o vestido”. Branco, elegante, com uma linda onda azul estampada na barra. Uma roupa que combinava perfeitamente com o mar e que fazia a pessoa entrar nos lugares em câmera lenta, de tão bonita.
Sentindo-se a própria rainha dos oceanos, Cidinha ajeitou a postura, colocou o seu melhor sorriso e foi ao salão principal. O coração batia naquele ritmo gostoso de quem sabe que vai chamar a atenção.
E chamou. Mas não do jeito que esperava.
Ao cruzar as portas do restaurante, o mundo de Cidinha congelou. O salão estava impecável. As mesas redondas ostentavam arranjos de flores. E as cadeiras… Ah, as cadeiras.
Cidinha piscou. Olhou para o próprio corpo. Olhou para a frente de novo.
Cada bendita cadeira daquele navio, cada barra da toalha de mesa, cada assento do banquete principal estava revestido com o exato, idêntico e mesmíssimo tecido do seu vestido exclusivo. Tudo branquinho, com a mesma onda azul decorando a barra de cada móvel. Olhando de longe, não se sabia onde terminava o encosto de uma cadeira e onde começava a cintura de Cidinha.
Se Cidinha sentasse, ela simplesmente desaparecia no cenário, virando parte do mobiliário. Se ela ficasse de pé ao lado de uma mesa, pareceria parte da decoração do bufê, correndo o risco de algum garçom apoiar uma bandeja de canapés em seu ombro. A estilista da Cidinha e o decorador do navio tinham, claramente, comprado o tecido na mesma loja e em grande quantidade. Naquela noite, Cidinha não desfilou. Ela se camuflou.
O ápice do evento aconteceu só na volta para o camarote. Cidinha, misturando crise de riso com o nervoso do mico, pegou o celular e ligou por vídeo para a irmã, Abigaíl.
— Abigaíl, você não sabe o que me aconteceu! — disparou, quase sem ar, mostrando o vestido na tela e emendando com as fotos que tinha tirado no salão. — Eu não fui a um jantar, Abigaíl, eu fui uma peça de mostruário!
Abigaíl, do outro lado da tela, quase caiu para trás de tanto rir. Foi a primeira vez na história dos cruzeiros que uma hóspede não precisou procurar um lugar para sentar, porque ela já era a própria cadeira. Cidinha era o navio e o navio era a Cidinha.
Vesti azul (Popopopopó!) /Minha sorte então mudou (Popopopopó!) / (Vesti azul – Nonato Buzar)