6:15A Era Neymar e a Era Gilmar

por Conrado Hübner Mendes, na FSP

Tipos bem diferentes nos afetos públicos brasileiros, vale observar onde se encontram. As faltas cavadas em campo encontram equivalentes funcionais nos ritos arbitrários e nas obstruções monocráticas do tribunal

“Onde você quer?”, perguntou o jogador. “Na trave, tenta na trave”, respondeu o goleiro feliz com a vitória.

Batido o pênalti, gastou tempo para encarar o goleiro e desafiar: “Comigo não, comigo não, otário”. Não correu para pôr a bola no meio de campo e tentar o empate. Não era conosco, era “comigo”. Não era com o time, era com ele. Sua fraqueza diante do goleiro simboliza o fim melancólico de toda uma era. Ou assim queremos crer.

Dia seguinte, ministro de tribunal supremo publica em rede social: “Encerrada nossa participação na Copa de 2026, fica a gratidão. Uma Copa do Mundo se constrói ao longo de anos, com disciplina e a enorme responsabilidade de todos que vestem a camisa verde e amarela. Agora, rumo a 2030, começa um novo ciclo”.

Conclui assim: “E a Neymar, uma justa homenagem à sua trajetória: ao representar o Brasil em quatro Copas do Mundo, nos emocionou com seu talento, categoria e gols que marcaram época. Minha gratidão por tudo o que representa para o nosso futebol“.

Logo abaixo do post, um aviso curioso: “Os leitores adicionaram contexto que as pessoas talvez queiram saber” (Readers added context they thought people might want to know). O contexto era: “Gilmar Mendes não mencionou, mas ele próprio e o filho têm grande influência na CBF“.

Abaixo desse raio contextualizador, alguns links de explicação: “Filho de Gilmar Mendes liga para presidentes de federações após denúncias contra Xaud”; “A caneta amiga de Gilmar Mendes”; “Enquanto a Copa rola, filho de Gilmar Mendes exerce seu poder na CBF”.

As notas da comunidade da rede de Elon Musk fizeram o que instituições de Estado se recusam a fazer: reconhecer e dar transparência a conflito de interesse.

O inusitado esclarecimento de leitores para leitores joga uma dúvida na qualidade republicana da “gratidão” afirmada duas vezes por Gilmar. Mas ainda não marca o fim de uma era, que só deve chegar com sua aposentadoria em 2030, se tudo correr dentro da instável normalidade constitucional brasileira.

Neymar e Gilmar contribuíram como ninguém para desagregar e sobretudo avacalhar a instituição coletiva da qual participam. Ambos protagonizaram a transformação da respectiva instituição em motivo de desconfiança, vergonha e falta de autoridade. São obstáculos individuais corrosivos ao projeto de uma jurisprudência constitucional que proteja nossos direitos e liberdades, por um lado, e de um padrão de jogo consciente de sua responsabilidade, por outro. As faltas cavadas em campo encontram equivalentes funcionais nos ritos arbitrários e nas obstruções monocráticas do tribunal.

O colapso constitucional e futebolístico não se faz com rupturas abruptas, mas por meticuloso deboche clepto-interessado.

Ao final dessas eras o que vai sobrar? Já se sabe que restarão instituições fraturadas por projetos pessoais e familiares cercados por rede de parças e bajuladores que lucram com a degradação. O mais fantástico é que os legados não são parecidos por mera coincidência.

A comunhão entre CBF e STF está documentada. E nos autoriza a desconfiar, de boa-fé, dos interesses por trás de cada decisão, cada liminar anulatória, cada contrato de patrocínio, cada convocação, cada escolha para cobrador de pênalti.

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