11:16Sob medida

Por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

Julia nasceu em setembro, desafiando a balança do berçário. Era um bebê imenso, magnífico, composto por bochechas, dobrinhas e uma ausência absoluta de pescoço — detalhe que um tio, vindo de São Paulo para a visita, fez questão de desejar que Papai Noel desse à menina um pescoço de Natal. O tempo passou, o pescoço começou a querer dar o ar da graça, mas a fofura continuava lá, firme, forte e distribuída em braços e pernas.

Aos dois anos e pouco, Julinha era aquela criança deliciosa, troncuda, que parecia imune à gravidade. Até que o destino resolveu cruzar o caminho da familia com a cadeira do quarto da mãe.

O encosto e assento da cadeira formavam uma espécie de vão, um desenho em “U” vazado bem no meio da estrutura. Um belo dia, a pequena resolveu explorar o móvel. O resultado foi imediato e geométrico: ela entalou. Ficou cravada exatamente naquele vão, perfeitamente encaixada por conta das suas próprias dobrinhas, sem conseguir ir para frente nem para trás. Parecia uma obra de arte contemporânea.

O que se seguiu na sala de casa foi um teste para a sanidade dos três.

O pai, tomado pelo desespero prático de quem já via a filha passando o resto da infância acoplada a uma acolchoada cadeira, começou a andar de um lado para o outro. Avaliava o ângulo da bunda da menina, media o espaço com os olhos, bufava, coçava a barba e pensava em buscar uma serra ou chamar o Corpo de Bombeiros.

E a mãe? Essa foi dominada por aquela risada que tranca a garganta e impede qualquer ação útil. Olhava para o pai andando de um lado para o outro em pânico, olhava para a filha ali, entaladinha na cadeira com aquela cara de “e agora?”, e simplesmente não parava de rir. Uma gargalhada descontrolada, de chorar, daquelas que quanto mais o marido se irritava com a mãe, mais o riso vinha.

Anos depois, ela já moça, mãe e filha riam disso na cozinha. O pescoço hoje está no lugar, a cadeira provavelmente virou lenha, mas a imagem daquela gordinha perfeitamente sob medida para o absurdo ficou guardada para sempre.

Eu era neném , não tinha talco, mamãe passou açúcar em mim…
Mamãe passou açúcar em mim (Carlos Imperial)

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