6:35Trump para quem gosta de futebol

por Elio Gaspari, na FSP

Ele deu um jeito, entrou na Copa e saiu dias depois. A encrenca com árbitro brasileiro é um estudo de caso da essência do presidente americano

O presidente americano, Donald Trump, deu um jeito, arrumou uma encrenca com o árbitro brasileiro Raphael Claus e virou personagem da Copa do Mundo. Puro Trump. Afinal, ele continua dizendo que ganhou a eleição de 2020. É verdade que parou de falar que Barack Obama nasceu na África. (No seu primeiro mandato ele produziu 30.573 mentiras ou falsidades, 21 por dia). De volta à Casa Branca, seguiu na mesma toada, porque esse é seu estilo e a encrenca com Raphael Claus é um estudo de caso de sua essência.

Na quarta-feira, o centroavante Folarin Balogun pisou no tornozelo do zagueiro Muharemovic da seleção da Bósnia. Depois de ver o vídeo no VAR, o árbitro Claus expulsou-o do campo. (Balogun disse que aceitava a decisão.) Trump contou que até então não sabia o que significava a apresentação de um cartão vermelho, com a consequente suspensão para o jogo seguinte, contra a Bélgica.

Até aí seria o jogo jogado, com um torcedor contestando um árbitro. No dia seguinte, o presidente dos Estados Unidos decidiu ligar para Gianni Infantino, presidente da Fifa, pedindo que anulasse a suspensão. Novamente, jogo jogado, pois cartolas adoram pressões de pessoas poderosas e Infantino deu a Trump um inédito prêmio da Paz depois que ele, com suas guerras, foi esquecido para o Nobel. Conseguiu. De lambuja estendeu a encrenca às federações de futebol europeias.

Na segunda-feira, na Casa Branca, Trump assumiu seu estilo. Avançou no tornozelo do árbitro. Sustentou que não houve falta e que, pelos seus antecedentes, Claus é “muito suspeito”. Puro Trump, fez a acusação sem uma migalha de argumento.

Mais: mobilizou janízaros da Casa Branca para contestar a honorabilidade de Claus. Não se discute mais a falta de Balogun, nem se exibe o vídeo da falta.

Roy Cohn, o temível litigante dos tribunais americanos, mentor do jovem empresário Donald Trump, ensinava: “Não me diga o que diz a lei. Diga-me quem é o juiz”. Os juízes, àquela altura, eram Infantino e alguns cartolas da Fifa. Bingo. (Em setembro chega às livrarias americanas uma biografia de Cohn, com o seguinte título: “Um Canalha Americano”.)

A realidade paralela que Trump cultiva e manipula explica a encrenca. O mundo vive a festa de uma Copa. A cerimônia inaugural do certame teve mais audiência que a ida do presidente ao sopé do monte Rushmore, onde estão esculpidos na rocha os rostos de quatro de seus antecessores. Ele precisava entrar naquela festa.

Entrou defendendo um atleta negro e admirado, parte de uma seleção festejada. Com o Brasil eliminado, falou-se mais de Trump do que da malcriação de Neymar com o goleiro norueguês. Trump não sabia o que significava um cartão vermelho, não tem noção do que vem a ser um impedimento e talvez ache que a meia-lua da grande área seja um enfeite, onde poderiam pôr seu retrato. Conseguiu entrar na festa da Copa, por poucos dias.

Na noite de segunda-feira, sem telefonemas, os deuses do futebol decidiram. Com Balogun em campo, a seleção americana foi mandada para casa.

Futebol, jogado dentro das quatro linhas, ainda é coisa séria.

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