Por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Outro dia estava lembrando de um caso de crime brutal que aconteceu no Rio, quando eu tinha uns oito anos, e que chocou profundamente a sociedade. O impacto foi tamanho que o caso virou até fotonovela na revista Flagrante nº 1. Fiquei pensando: se hoje fôssemos escrever sobre cada uma dessas barbáries diárias, as gráficas estariam bilionárias e as bancas de jornais virariam gigantes bibliotecas.
Em julho de 1960, o país parou para ver aquelas páginas em preto e branco encenando os passos sombrios de Neide, a Fera da Penha, e o destino cruel da pequena Taninha. Naquela época, o horror ainda paralisava os humanos. Havia um tempo de espera: o crime acontecia, a gráfica rodava e o leitor folheava a tragédia no banco da praça, digerindo a dor em balões de fala e legendas dramáticas.
Hoje, essa mesma “banca” está instalada no bolso de cada cidadão, operando 24 horas por dia.
A fotonovela apenas se modernizou: as fotos estáticas viraram vídeos de câmeras e os balões de diálogo foram substituídos por áudios. A novela agora é transmitida ao vivo, com o público participando ativamente nos comentários, apontando dedo e decretando sentenças em tempo real. Resta a dúvida: o mundo de fato piorou na quantidade de crimes por minuto ou foi a nossa miopia que acabou, já que a informação antes simplesmente não circulava tanto? É provável que a barbárie sempre tenha estado lá, mas o fato é que hoje ela se multiplica sem filtros na nossa tela. Mudamos o papel pelo vidro do celular, mas o apetite humano pelo macabro continua intocado. O Brasil segue consumindo seus crimes como capítulos diários de uma ficção real.
A grande e dolorosa diferença é a normalização. Aquela capacidade de se horrorizar, que marcou a minha infância, foi engolida pelo excesso. Antes, o horror parava o cotidiano e nos obrigava a olhar para a nossa própria humanidade. Hoje, ele faz parte da engrenagem. Deixamos de ser uma sociedade profundamente abalada para nos tornarmos uma sociedade distraidamente espectadora — anestesiada, que consome a tragédia entre um clique e outro, aceitando o absurdo como se fosse apenas mais um post esperando o feed carregar.
No fundo, viramos a trilha sonora de João Bosco e Aldir Blanc tocando em modo de repetição na timeline. Passamos o olho na tela, arrastamos o dedo e fingimos não ver que, a cada segundo, tá lá um corpo estendido no chão.