6:55O casamento amarelo-ovo

por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

Era dia 27 de setembro, dia de Cosme e Damião. Se a data já pedia uma certa doçura e uma pitada de festa popular, o visual de Luana resolveu entregar o espetáculo completo — só faltaram os doces e os saquinhos de papel de seda.

Ela não queria saber de véu, grinalda ou daquela paleta sem graça de brancos e “gelos”, como se dizia à época. Luana escolheu o contraste, a afronta estética. Mandou fazer um vestido tomara que caia amarelo. Mas não era um amarelo sutil, desbotado, pastel… Era amarelo-ovo. Intenso, solar, daquele que cega a retina e que não dá para ignorar nem sob a penumbra de um eclipse. Para completar, havia uma espécie de echarpe — ou seja lá o nome que se dê àquela faixa flutuante de seda — que envolvia o pescoço de Luana com o mesmo tom vibrante, quase como uma aura incandescente.

O cenário não era uma igreja, era um salão de festas. E ninguém ali estava devidamente preparado para o que estava prestes a cruzar a porta.

Quando Luana entrou… que choque!

Dava pra ver nos olhos dos convidados, a ala majoritariamente conservadora, o exato momento em que o cérebro dos familiares tentava processar aquela visão e recalcular a rota. Os amigos, claro, nem piscaram: já esperavam qualquer bizarrice ou genialidade vinda dela. Foi uma mistura de queixo caído coletivo com um silêncio que logo se transformou em um burburinho generalizado. Luana não estava apenas entrando no seu casamento; ela estava inaugurando o ambiente, acendendo a luz do salão — e provavelmente a pressão de algumas tias — com o próprio vestido. Foi audacioso, foi inesquecível e, acima de tudo, foi a cara dela.

Me leva, amor
Por onde for, quero ser seu par Andança –
(Edmundo Souto, Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós)

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