6:36O peso da dor

Por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

Dizem que o coração é só um músculo, mas a anatomia falha em explicar a dor no peito. Ele é, na verdade, onde todas as nossas dores se cruzam. E são tantas.
Há a dor abstrata, coletiva, que aperta quando andamos pela rua e esbarramos na pobreza e na fome. Há a dor física, concreta, essa que trava as costas, cansa os olhos e rouba as forças, nos impedindo de continuar ou até de finalizar um projeto que tanto queríamos entregar ao mundo. O corpo simplesmente cobra o preço e para.
E há, por fim, a dor do luto absoluto. A notícia da partida de Marjane Satrapi foi devastadora: a criadora de Persépolis, que sobreviveu a revoluções e exílios, morreu de tristeza pouco mais de um ano após perder o marido, Mattias Ripa. O coração, que aguentou as dores do mundo, quebrou de saudade.
No fundo, todas são farinhas do mesmo saco. Seja a fome na calçada, o corpo que falha diante de uma meta ou o amor que se vai, tudo dói no mesmo lugar. Somos feitos de fragilidades.
Diante de tamanha fragilidade, a gente se pergunta como o ser humano ainda consegue colocar um pé à frente do outro. Como continuar produzindo, sonhando ou simplesmente existindo quando o corpo reclama ou quando o mundo ao redor parece desabar?
Talvez a resposta esteja no mesmo lugar de onde nasce o aperto. Se a dor é o preço que pagamos por estarmos vivos e atentos, a nossa insistência em criar é a única teimosia que nos salva. Escrever sobre a dor, dar nome à fome, chorar os amores que partiram e respeitar o limite do próprio corpo não são sinais de fraqueza. São o nosso jeito de dizer ao mundo que, apesar de tudo, o coração ainda bate. E enquanto bate, insiste.

“Viver é desenhar sem borracha. Millôr Fernandes

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