por Carlos Castelo
Há sinais inequívocos de que o inverno chegou. O primeiro é a pessoa que, em maio, anuncia “agora esfriou de vez”, como se tivesse acesso exclusivo ao departamento meteorológico da NASA. O segundo é o surgimento, nas ruas, das jaquetas de gominhos. Sim, aquela peça acolchoada, leve e meio inflada, dividida em faixas horizontais costuradas, que parecem pequenos travesseiros em filinha.
Elas aparecem de repente. Num dia, ninguém. No outro, nove entre dez pessoas estão embaladas a vácuo em pequenos compartimentos, como se a humanidade tivesse sido cuidadosamente embrulhada para congelamento.
A jaqueta de gominhos é democrática: veste o advogado, o estudante, a moça do caixa, o tio do churrasco e aquele sujeito que nunca sente frio, mas usa mesmo assim, por prudência estética.
Há algo de misterioso nesse vestuário. Eles prometem tecnologia aeroespacial, embora a maioria de nós só vá usá-lo para comprar pão. A pessoa coloca o traje e já ganha um ar de explorador polar, mesmo que esteja atravessando a rua para pegar um café. Falta apenas um trenó, dois cães samoieda e uma frase corajosa: “Seguiremos até a padaria, custe o que custar”.
O mais curioso é a uniformidade. Preto, azul-marinho, verde-musgo. Todos caminhando com aquele leve barulhinho de plástico bolha em movimento. Enfileiradas, as jaquetas se reconhecem. Uma encosta na outra e produz um ruído fraterno: “fshh-fshh”. É a comunicação secreta dos encasacados.
Também existe a questão do volume. Ao vestir uma jaqueta dessas, a pessoa não ocupa mais o mesmo espaço social. Ela se expande. Abraçar alguém vira operação logística. Entrar num elevador exige negociação diplomática. Sentar-se no ônibus é aceitar que metade da japona ficará no seu colo e a outra metade no colo de um estranho, que fingirá naturalidade enquanto pensa: “Estou compartilhando um gominho”.
E os bolsos? Sempre profundos o bastante para perder chaves, recibos, moedas, fones, documentos e, quem sabe, um porquinho da índia friorento. A pessoa procura o celular e encontra uma bala 7 Belo de 2022, uma nota fiscal amassada e uma sensação de vazio existencial.
Ainda assim, é impossível resistir. A jaqueta de gominhos oferece conforto, anonimato e a ilusão de que estamos preparados para qualquer catástrofe climática. Talvez seja isso: no inverno, todos queremos parecer sobreviventes. Mesmo que o maior perigo seja derramar chocolate quente na manga.
Pensando bem, a jaqueta de gominhos é menos uma roupa e mais uma filosofia: a vida é fria, complicada e cheia de vento. Melhor enfrentá-la de airbag.
(Publicado na Fórum)