8:11Derrota antes do apito

Por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

O relógio marcava 19h12 quando ele saltou do ônibus, quase atropelando uma senhora com sacolas de supermercado. Não havia tempo para desculpas; o hino nacional começaria em dezoito minutos. Correu as três quadras até o prédio como se a própria alma estivesse em jogo, o coração no ritmo da bateria da torcida. Passou pelo porteiro com um aceno tenso, subiu o elevador apertando o botão repetidas vezes — como se o visor fosse obedecer à sua ansiedade — e abriu a porta do apartamento num arranco.

A mochila foi jogada em um canto. Os olhos, secos de expectativa, encaravam a televisão.

O controle remoto foi acionado. A tela acendeu. Mas, em vez do gramado e do som ensurdecedor do estádio, surgiu uma tela preta com um retângulo cinza e a mensagem mais temida da era moderna: “Sem sinal. Verifique a sua conexão ou contate sua operadora.”

O estômago do garoto revirou.

— Não, não, não… Agora não! — blasfemou, como se o aparelho se sensibilizasse com o seu desespero.

Voou pra trás do rack. Entre poeira e fios emaranhados, começou o ritual de sobrevivência digital. Desliga o modem da tomada. Conta até dez — a contagem mais longa da vida. Liga de novo. As luzes piscam numa lentidão irritante. O power acende. O indicador do sinal oscila. E a luz do online… vermelha. Uma trágica e reluzente luz vermelha.

Olhou o relógio: 19h21. O pânico tomou conta.

Com fé cega, desconectou os cabos brancos de rosca e soprou as pontas — técnica herdada dos cartuchos de videogame. Nada. A TV continuava no mais pleno silêncio.

Pegou o celular com as mãos trêmulas para ligar para o suporte. Após passar por três menus digitais e uma atendente virtual de voz excessivamente calma, veio o veredito gravado: “Identificamos uma instabilidade na sua região. Previsão de retorno dos serviços: 8h30.”

Oito e meia? Da manhã seguinte?! Mais de doze horas de espera? Ou a gravação patética queria dizer vinte e trinta daquela noite, o que ainda assim significava perder o primeiro tempo inteiro? Não importava. Para um adolescente a dez minutos do pontapé inicial, qualquer prazo que não fosse “agora” soava como o fim do mundo.

O 4G oscilava entre dois risquinhos na tela do celular. O jeito seria apelar para uma transmissão no YouTube, rezando para a franquia de dados não evaporar nos primeiros quinze minutos.

Ali estava ele: a camisa oficial que custou três mesadas e a impotência de quem foi derrotado antes mesmo do apito inicial. Não por um gol adversário, mas por um cabo partido em algum poste da cidade.

No reflexo da tela apagada, a imagem que sobrava era a de um garoto de amarelo, com o controle remoto empunhado como uma arma inútil. No chão, a luz do modem continuava piscando em um vermelho lento e indiferente.

O futebol pode até ser o ópio do povo, mas, no fim das contas, o senhor do destino veste uniforme de técnico de operadora.

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