7:20As tampas perdidas

por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

Simone estava prestes a enlouquecer. A sala, antes impecável, virara um labirinto de caixas e plástico bolha — a mudança tem o poder de transformar a vida num acampamento de nós mesmos.
Sentada no chão, Moni travava uma batalha contra os potes de vidro. Diferente de outras cozinhas, a sua só tinha potes de vidro robustos e transparentes. O problema? No caos dos caixotes, as tampas tinham fugido. Ela segurava um pote perfeito enquanto dezenas de tampas giravam num carrossel inútil. Nenhuma encaixava. A irritação no fundo nem era pelo vidro: era a sensação de que, ao empacotar a vida, ela própria virara um pote sem tampa.
Mas Simone cansou da pasmaceira. “Chega, Moni, levanta daí”, ordenou a si mesma. Resgatou a última faca afiada e avançou contra o exército de papelão com uma fúria libertadora. Zás! Degolou uma caixa de jornais. Zupt! Rasgou a de panos de prato. Foi fatiando as fitas adesivas até travar os olhos no alvo final: uma caixa isolada com a inscrição TRAVESSEIRO.
Não pensou duas vezes. Ergueu a faca e enterrou a lâmina com gosto, bem no meio, esperando uma nuvem de plumas como num filme de Hollywood.
Mas o baque foi seco. Quando abriu o rasgo com as mãos, o que saltou foi um festival de plástico bolha e dezenas de tampas de metal, rosca e cortiça — estocadas ali por uma Simone do passado já exausta.
Moni largou a faca e desabou na risada. Pegou o primeiro pote, testou a primeira tampa e ouviu o estalo perfeito do encaixe. A rainha dos potes tinha vencido a guerra. Ligou o celular e a voz de Beth Carvalho invadiu o vazio das paredes: “Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé…” O batuque ecoou, e a sala, enfim, virou festa.

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