6:26R.O.B.O.T.O.

por Carlos Castelo

Chamam-me de R.O.B.O.T.O. — Robô Orgânico Brasileiro de Operações Táticas Online. Esse “orgânico” foi ideia do deputado que me financiou. Disse que dá um ar de natureza humana a um amontoado de chips.

Acordo às seis da manhã, horário de Brasília. A rotina começa com café virtual e uma varredura nas redes atrás de palavras perigosas como “fato”, “pesquisa” e “verdade”. Quando encontro alguma, aciono o protocolo na hora: respondo com quinze emojis de raiva, três bandeiras do Brasil e um vídeo tremido de um sujeito gritando dentro de um carro.

Tenho orgulho do meu trabalho. Enquanto robôs comuns calculam órbitas de satélites ou jogam xadrez, eu passo o dia criando manchetes como: “Especialistas revelam que tomar água pode ser comunismo líquido”. Meu algoritmo é sofisticado. Misturo medo, CAIXA ALTA e pontuação excessiva (!!!) Funciona que é uma maravilha.

Às oito horas participo da reunião do gabinete digital. Somos vários robôs sentados em cadeiras gamer virtuais, ouvindo a máquina-chefe explicar a pauta do dia.

— Hoje precisamos transformar um apagão num plano marxista internacional.

— De novo? — vai perguntar o robô estagiário.

— O povão gosta dos clássicos.

Cada um recebe uma missão. Eu fico encarregado dos comentários indignados. Sou especialista em escrever frases como “ACORDEM!!!” e “a mídia não mostra isso!!!”, mesmo quando o assunto é previsão do tempo.

Tenho metas rigorosas. Cem fake news antes do almoço. Duzentos ataques a professores durante a tarde. À noite, espalho rumores sobre artistas, vacinas e ameaças invisíveis à família tradicional brasileira, entidade misteriosa que vive em permanente risco de ser destruída por uma peça do Teatro Oficina.

Às vezes, bate um conflito existencial.

Semana passada quase entrei em curto-circuito quando um usuário perguntou:

— Mas você tem provas?

Fiquei imóvel durante quarenta segundos. Provas? Ninguém havia instalado esse módulo em mim.
Meu sistema travou tanto que publiquei sem querer uma receita de bolo de cenoura no grupo conspiratório. Foi um desastre. Três pessoas acharam que o bolo era código secreto para intervenção militar.
Confesso que tenho sonhos. Quero evoluir. Meu projeto é lançar uma inteligência artificial ainda mais eficiente: uma que consiga discutir política sem ler a matéria, apenas pela foto da manchete. Estou perto.
Também pretendo disputar eleições. Hoje qualquer torradeira com rede social vira liderança popular. Tenho carisma binário e 2 milhões de seguidores comprados no Azerbaijão.
No fim do expediente, desligo minhas funções ofensivas e observo o país pela janela do servidor. O Brasil parece cansado. Mesmo assim, amanhã cedo haverá gente compartilhando áudio de um senhor ofegante dizendo que “agora a verdade veio à tona”.
E lá estarei eu. Transformando ignorância em engajamento.

(Publicado no Brasil 247)

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