por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Diz o velho deitado que para baixo todo santo ajuda. Mas no décimo quinto andar de um prédio, quando a energia cai exatamente um minuto antes de o seu neto sair — super atrasado — para a escola, você não precisa de um ditado popular. Você precisa de um milagre.
E ele veio. Exatamente dois minutos depois do apagão, a luz piscou e voltou. Foi o tempo exato de o menino entrar no elevador, descer e sumir no horizonte rumo ao colégio. Um trabalho nos trinques, sem dúvida coordenado pelo Santo ou pela Santa dos Atrasados, que resolveu dar uma força de plantão (perdoe o trocadilho luminoso).
Mas a alegria de quem mora nas alturas dura pouco. O neto foi, a energia voltou a cair e fiquei ali: presa no topo do mundo, sem elevador e uma arara. Duas horas depois do blecaute, tomei a decisão mais ousada e perigosa do dia: ligar para o 0800 da nossa recém-privatizada Copel.
É aí que o misticismo divino dá lugar ao purgatório tecnológico.
Uma voz eletrônica, com aquela simpatia de quem está programada para testar a sua sanidade, atende e dita as regras: “Se você levou um choque, se o seu cachorro levou um choque, se a sua casa está pegando fogo ou se há iminente risco de morte, disque um.”
Eu só queria o básico, o óbvio: reclamar que a luz acabou e implorar para que ela voltasse. Mas, aparentemente, faltar luz em Curitiba não é um problema elétrico relevante para a inteligência artificial da companhia. Não apertei nada. A máquina, ofendida com o meu silêncio, decretou: “Opção inválida”. Como se eu estivesse errada por não estar pegando fogo.
Desliga. Respira. Liga de novo. O mesmo menu dramático se repete. No desespero, resolvo ceder à chantagem do robô e aperto o maldito “um”. A voz, com um tom que beirava o deboche cibernético, rebate: “Opção inválida”. Pô! Aí o estresse já subiu para o décimo quinto andar, de escada e sem respirar.
Desisti da voz e fui para o WhatsApp. “Agora vai”, pensei, doce ilusão. O robô do Whats, primo do robô do telefone, exige o número da Unidade Consumidora, a tal do UC. Lá vou eu caçar fatura no Gmail. Acho o número, digito o CPF, confiro os dados, aperto enviar… e o sistema simplesmente não manda. A mensagem não sobe. Você digita “concluído”, reza para outro santo, o santo das causas perdidas, mas a barrinha de envio ignora a sua existência. É o limbo digital.
A humilhação só terminou quando ignorei os canais oficiais modernos, achei um número comum — um “30 e lá vai fumaça” — e finalmente fui atendida por uma robô mais inteligentinha.
A luz voltou, o neto estuda, e eu fico aqui pensando: a Copel pode até ter sido privatizada, mas o atendimento foi terceirizado direto para o além. Na próxima, em vez de ligar para o 0800, acho mais fácil acender uma vela e falar direto com o Santo dos Atrasados ou com a Santa das Causas Perdidas. Pelo menos o retorno é bem mais rápido.
(Luz, quero luz / Sei que além das cortinas são palcos azuis Vida – Chico Buarque)