de Paulo Krauss
Nenhum artista teria criado uma obra tão perfeita para relembrar o ataque a Hiroshima como o Domo da Bomba Atômica, o esqueleto de ferro e concreto que sobrou de um prédio da Prefeitura da cidade após a explosão de 6 de agosto de 1945.
A bomba Little Boy, lançada pelos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, matou setenta mil pessoas de forma instantânea. Mas este número pode ter dobrado nos anos seguintes como consequência de queimaduras, ferimentos e radiação. Os hibakusha (sobreviventes) sofreram com doenças causadas pela radiação por décadas.
Esse ataque, somado ao de Nagasaki três dias depois, causou a rendição japonesa e o fim da guerra. Mas é uma mancha na história da humanidade. Quem visita Hiroshima não sai sem ser impactado pelo resto da vida.
Patrimônio da Unesco, a Cúpula Genbaku (bomba atômica em japonês) é uma visão angustiante e uma sensação da mais profunda tristeza. Não há como olhar para o escombro do prédio e não pensar se a bomba era mesmo necessária, mas aí já entraria também a dúvida se toda guerra é necessária. E o fato é que o Japão, durante algum tempo, foi um país belicista, antes de ser a ilha pacífica de hoje.
O Domo, que até o dia da bomba era um centro de exposições industriais e comerciais da cidade, estava a apenas cento e cinquenta metros do epicentro da explosão. Pela lógica, deveria ter virado pó. Então é impressionante que partes das paredes e da cúpula tenham resistido, inclusive sem risco de desabar nos anos seguintes.
A construção do Parque Memorial da Paz em seu entorno chegou a ser criticada na época, mas o bom senso prevaleceu.
O local também abriga o Museu do Memorial da Paz, um belíssimo prédio moderno do arquiteto japonês Kenzo Tange, vencedor do Prêmio Pritzker em 1987, o “Oscar” da arquitetura.
Apesar de ser um Museu da Paz, tudo ali lembra guerra, tristeza e morte. São objetos das vítimas, como roupas queimadas, relógios parados em 8h15, o horário da explosão, e até um triciclo de uma criança de três anos. Há testemunhos emocionados de sobreviventes e mensagens de paz. O lema do museu é “Nunca Mais Hiroshima”, com foco na abolição das armas nucleares.
No livro Museu do Silêncio, a escritora japonesa Yoko Ogawa criou um projeto de um museu sobre pessoas, depois que morrem. O curador contratado para fazer o museu vai em todos os velórios para pesquisar e obter um objeto, um único objeto, que simbolize aquela pessoa que partiu. Muitas vezes esse objeto é furtado, em nome do bem maior de eternizar a memória da pessoa no museu.
Sem dúvida, Hiroshima foi inspiração para esse romance, lançado no ano 2000 por Yoko — a escritora japonesa mais premiada nos dias atuais. Não deixa de ser um resgate em forma de ficção, porque em Hiroshima não houve tempo para curadoria. O Museu da Paz teve que ser montado com o que restou das pessoas, vítimas de uma das maiores atrocidades da história mundial.
Ainda bem que o Domo da Bomba Atômica permaneceu lá, semidestruído, mas de pé, como a dizer “Nunca Mais”.
*A crônica O Museu do Silêncio, do jornalista curitibano Paulo Krauss, ficou em primeiro lugar no concurso nacional Selo Off Flip. Ela fará parte do livro Guerra e Paz, antologia que será lançada em breve pelo Off Flip. Também faz parte do livro Meu Japão, lançado por Krauss na semana passada.