por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Clarice cruzou o corredor com a determinação de uma CEO prestes a fechar um grande negócio. Postura firme, passos decididos, cara de poucos amigos. Entrou na cozinha, parou exatamente entre a geladeira e o armário de temperos, abriu a boca para ditar uma ordem ao universo e… o vazio. O absoluto e humilhante nada.
Em menos de três segundos, a mente de Clarice — que, um piscar de olhos antes, debatia-se entre as grandes crises conjunturais e a gravidade de esquecer de comprar papel higiênico — transformou-se em uma ruidosa tela em branco.
Ela olhou para o micro-ondas. O aparelho a encarou de volta, piscando o relógio de maneira insolente. Parecia zombar da sua pane de memória recente. “O que me trouxe aqui?”, perguntou-se, num monólogo digno do teatro do absurdo doméstico. Teria sido o desejo por um picolé diet? A necessidade urgente de resgatar um pano de prato? Ou ela simplesmente entrou na cozinha para contemplar o infinito?
Sem pista nenhuma, Clarice aplicou a tática universal dos desesperados: refazer os passos, como um detetive de filme policial. Voltou ao ponto de partida, o sofá da sala.
Foi aí que a segunda fase do plano de sabotagem residencial entrou em ação. Decidida a anotar o que quer que fosse na sua agenda para não esquecer mais, percebeu que faltava o equipamento básico de sobrevivência e blasfemou: Cadê os óculos?
Não estavam na mesa. Nem na estante. Nem dentro do sapato — uma conferência neurótica que ela fez por puro desencargo de consciência, já que, a essa altura, as leis da física pareciam suspensas naquele apartamento. Clarice iniciou uma busca insana. Levantou as almofadas, checou os vãos do sofá, quase ligou para o próprio número para ver se a armação tocava, praguejando silenciosamente contra a colônia de gnomos invisíveis que certamente pagava aluguel na sua sala.
Só parou quando, ao passar a mão pela testa para enxugar o suor da indignação, os seus dedos bateram em algo como um aro. Os óculos estavam ali, confortavelmente aninhados no topo da sua cabeça, assistindo de camarote, e de primeira classe, a todo o espetáculo.
Já com os óculos devidamente rebaixados para o nariz, a visão do mundo clareou e, num estalo humilhante, a memória resolveu voltar de seu breve passeio. Clarice marchou de volta à cozinha, abriu o armário com a dignidade de uma vitoriosa e pegou exatamente o que motivara toda aquela odisseia: um simples copo d’água.
Enquanto bebia, concluiu: esquecer as coisas não é um defeito de fábrica nem é a idade cobrando o pedágio. É apenas a cabeça fazendo uma limpeza de disco necessária, deletando arquivos temporários para abrir espaço para a próxima chave que, inevitavelmente, vai desaparecer como tudo tem dado sumiço.
“Deus dá a todos o espetáculo, mas fecha a cortina para os distraídos.” (Helena Kolody)