por José Maria Correia
Confesso que torci o nariz quando na Netflix assisti o trailer do filme Brasil – A Saga do Tri.
Pensei: lá vem mais uma patriotada demagógica e barata em cima do futebol , o esporte do abnegado povo brasileiro.
Era o que as primeiras imagens e a publicidade sugeriam, com ênfase na camisa amarela, a mesma apropriada e desvalorizada pelas campanhas políticas polarizadas.
Também tenho repulsa pela administração da CBF, invariavelmente protagonista de escândalos e de episódios de corrupção. Cartolas multimilionários presos e afastados como ocorreu também na FIFA .
Mas… que fazer ? A paixão pelo futebol sobrevive, apesar dos apesares . Como quase tudo na vida .
E então, lá fui eu para o meu sofá com o velho pijama , os gatos e as cachorras gêmeas .
Minha turma . Enquanto ronronavam e roncavam como um time sonolento, comecei a assistir o filme , sem nenhuma expectativa.
A primeira impressão já foi forte, a impressionante semelhança física do pouco conhecido ator Lucas Agrícola com o rei Pelé . Quase um sósia. Até no jeito de caminhar e no olhar .
Em seguida o bom roteiro de Naná Xavier Dorneles e equipe de pesquisas. Interessantíssimo para mim que acompanhei todos os jogos da Copa do Mundo de 1970 daqui mesmo , nos antigos televisores. Os amistosos, a classificação e os jogos oficiais.
Fiquei feliz de ver o saudoso técnico João Saldanha , um athleticano que morou em Curitiba e era amigo de meu pai ser interpretado por Rodrigo Santoro,que entrou firme no personagem.
Voltei no tempo, como se existisse a Máquina do Tempo das histórias em quadrinhos do cientista professor Papanatas. Mergulhei na imersão dos capítulos e fui enviado em uma viagem para os meus primeiros anos da Faculdade de Direito da Federal .
Em época de jogos do mundial a Gazeta Esportiva chegava a esgotar nas bancas . As páginas eram coloridas e as televisões ainda em preto e branco .
O técnico Saldanha era conhecido e admirado por ter sido um técnico destemido no Botafogo , o time da Estrela Solitária, onde dirigiu Garrincha e Didi – e pelas loucuras de ter dado uns tiros em direção ao goleiro Manga, por acreditar que tinha vendido um jogo .
Foi por ser firme em propósitos como treinador e jornalista influente e talentoso da bancada de Nelson Rodrigues e Armando Nogueira que acabou sendo convocado para formar um time para a Copa em 1969.
A história é conhecida e o roteiro fiel dentro dos limites possíveis para a sétima arte.
Os capítulos tem suas enrolações como as novelas , mas dá para adiantar um tanto . E quem quiser se sentir nessa viagem para dentro dos estádios , do Monumental Azteca , dos vestiários , cheios de fumaça dos cigarros do maestro Gerson, o Canhotinha de Ouro e principalmente dentro do gramado , onde ocorriam as batalhas campais, , assista .
Como telespectador vai estar jogando na defesa com os gigantes Carlos Alberto e Hércules Brito Ruas protegendo o goleiro Félix . No meio de campo estará lado a lado com os monstros Clodoaldo Gerson e na meia com Rivelino tabelando .
E no ataque chutando forte no gol com Jairzinho , Pelé e Tostão. Todos na tela com atores que souberam interpretar os melhores do mundo .
Tostão o intelectual do time .
Paulo César, o indignado com a situação política do Brasil.
Craques que além de jogar futebol tinham presença constante em publicações de vanguarda como o revolucionário Pasquim sempre enrolado com a censura e as ameaças dos grupos de extrema direita.
É pouco? não! Na série tem mais: o espetacular humorista e imitador Marcelo Adenet como o radialista que narrava os jogos no rádio enquanto o João Sem Medo comentava com suas tiradas humorísticas e críticas fortes ao técnico Zagalo que o substituiu no México. Bruno Mazeo , filho de Chico Anysio, interpretou o Velho Lobo .
Foi uma verdadeira saga até chegar na taça Jules Rimet .
As caçadas para quebrar Pelé em campo .
As explorações políticas da ditadura militar em cima do time e até as tentativas do ditador general Médici de tentar colocar seu preferido no time , o jogador Dario, o Dadá Maravilha, um goleador estupendo , mas não para o nível das Feras de Saldanha .
Saldanha não deixou e peitou o velho ditador .
Não só isso , denunciava constantemente as prisões , os exílios , a tortura e os assassinatos. Foi demitido , é claro .
E o que mais há de interessante?
Há o foco na pressão sobre Pelé que não tinha formação política, nem ideológica e ingênuamente se deixava manipular pelo regime autoritário.
Nas quatro linhas era um gênio inigualável, fora delas não.
E por aí vai a miscelânea.
No rádio e na televisão,era o ufanismo com as músicas de Wilson Simonal .
Nas ruas , nas universidades, livrarias e teatros eram a censura e a repressão.
E na periferia eram as contradições entre a precariedade da vida real e a magia do futebol .
A minha geração de 68 já havia lutado nas barricadas pela gratuidade do ensino público ameaçada e também tinha a cabeça feita pela rebeldia , nos protestos pelo fim da Guerra do Vietnã .
Na contracultura e na literatura de vanguarda. Geração dos festivais de cinema e de Woodstock. De Janis Joplin e do atemporal Bob Dylan .
Para quem viveu tudo isso há mais de meio século a série é de emocionar e um reencontro.
Para quem tem menos de sessenta anos, e não for muito exigente para além da história do futebol e as circunstâncias dramáticas de uma época de enfrentamentos e de lutas pelo retorno ao estado de direito e à democracia, vale a pena .
Quanto ao velho aqui , emotivo como sempre, rolaram alguns lágrimas por saudades de todos .
E de uma época , em que apesar de tudo , eu era feliz . E não só sabia. Tinha certeza .