por Lea Oksenberg
Francisco nasceu em Picos, no interior do Piauí, mas o destino — e um charme discreto de quem não faz força — o levou direto para a capital paulista. Na selva de pedra, Chico era um bicho-do-mato refinado: devorava livros, amava esportes e guardava uma timidez do tamanho do mundo. Demorou para engrenar nos amigos e nos namoros. Enquanto o amor não vinha, ele ia se achando nas páginas da literatura e nos braços de uma moça da vida, uma dessas paixões de transição que preenchem o tempo enquanto a vida de verdade não acontece.
Até que o destino cruzou o caminho dele com Juliana. Ju era bem mais nova e, como diria um bom paraibano, arretada que só ela. Foi faísca pura. Chico alucinou; Juliana achou uma graça sem fim naquele homem intelectual e tímido, que ficava completamente sem jeito com o seu estilo “saidinho”.
Começaram a se ver todo sábado. Mas o ritmo de Francisco era de uma lentidão quase litúrgica. Passavam-se as semanas e nada do rapaz pegar na mão de Ju. Sim, caro leitor, estamos falando de um simples e casto segurar de mãos.
Sábado vai, sábado vem, Juliana cansou de esperar o milagre da iniciativa. “Hoje eu estou pro crime”, falou para si mesma, decidida a dar um basta naquele reme-reme. Quando se encontraram, ela não esperou: tomou a mão de Francisco com vontade. O recado estava dado. Dali para a frente, a intenção era clara: Juliana queria fazer turismo completo pelos “Países Baixos” do seu tímido piauiense. E assim, entre o fogo dela e a calmaria dele, engataram um longo relacionamento.
Os opostos se atraíam, mas as fantasias também se refinavam. Um belo dia, Chico juntou cada gota de coragem que tinha no peito e soltou a bomba:
— Você topa transar com outra pessoa… e me deixar olhar?
Juliana, que não tinha nascido ontem e já tinha rodado um bocado por esse mundo, nem piscou: topou. Mas o roteiro exigia regras. Tinha de ser um estranho total, alguém que não fizesse ideia de que ela namorava. Depois de muita triagem e entrevistas com “candidatos” improváveis, acharam o sujeito ideal.
O palco do teatro foi o apartamento dela. Para Chico conseguir assistir de camarote, a ação precisava acontecer na sala. Tudo armado, figurino pronto, o rapaz se encastelou, estratégico e invisível, na lavanderia.
O clima esquentou, a performance na sala estava impecável, o plano corria às mil maravilhas… até que a biologia resolveu trair o voyeur. No auge do ato, Francisco foi acometido por uma crise de tosse daquelas bem barulhentas, de fumante inveterado.
Na sala, o “eleito” travou na hora. Olhou para os lados, pálido, e não teve dúvidas: o apartamento era assombrado por um fantasma asmático. O rapaz juntou as calças e saiu voando dali, deixando Juliana na sala, Chico na lavanderia e o além-túmulo engasgado.
Meu bem, você me dá água na boca
Vestindo fantasias, tirando a roupa
Molhada de suor de tanto a gente se beijar…
(Mania de vice – Rita Lee e Roberto de Carvalho)