6:14Quem tem medo de Virginia Fonseca?

por Mariliz Pereira Jorge, na FSP

Contratação de influencer pela Globo para cobrir Copa do Mundo é só entretenimento, não jornalismo. Ofício real não perdeu espaço para influenciadores porque o lugar dele nunca foi o palco de espetáculo

Longe de mim defender que Virginia Fonseca seja contratada para qualquer coisa. Estou a quilômetros de compreender esse fenômeno de vazios e futilidades. Eu mesma poderia engrossar o coro dos descontentes; afinal, sou jornalista e fui colunista de Esporte da Folha. Muito bem avaliada, muito obrigada. Cobrir mais uma Copa do Mundo é algo com que qualquer profissional sonha.

Toda a indignação, no entanto, seria comovente se não fosse anacrônica. Essa suposta invasão bárbara não é nova. Anos atrás, a moda entregou as credenciais do jornalismo para quem sabe fazer carão na primeira fila, mas é incapaz de decifrar a semiótica de uma costura. A TV Globo transformou a cobertura do Carnaval numa tragédia histórica ao trocar repórteres tarimbados por influenciadores que boiavam em jargões vazios diante das escolas de samba. Teve que voltar atrás.

Eventos esportivos são acompanhados há décadas por humoristas em parcerias com editorias de jornalismo. No ecossistema político, qualquer sujeito com um microfone de lapela se autoproclama analista quando é só militante animador de torcida. E não vamos esquecer a pandemia de podcasts comandados por entrevistadores que não sabem entrevistar e surfam em platitudes incapazes de aprofundar discussões que poderiam ser interessantes.

Podemos e devemos criticar Virginia por “ene” coisas, mas a cobrança por sua escalação para a Copa erra o alvo. O Domingão com Huck é um programa de entretenimento, não o Jornal Nacional. A influenciadora não vai analisar a prancheta do treinador ou fazer jornalismo esportivo sério. Pelo amor de Deus, não. Ela vai entregar o que a consagra diariamente. Você gosta? Eu não.

Há tempos, o monopólio da comunicação e da informação já não pertence ao jornalismo e aos diplomados. Essa mudança evidente cobra um preço alto, mas serve também como um empurrão necessário. O cenário exige de nós, profissionais, a missão de provar que nossa entrega é essencial e insubstituível. O ofício real não perdeu espaço para influenciadores porque o lugar dele nunca foi o palco de espetáculo.

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