6:31Não se fazem mais invernos como antigamente

por Giovana Madalosso, na FSP

Algumas semanas depois que eu nasci, em 1975, nevou em Curitiba. A grama da cidade não fica mais branca com a geada: há algo de sinistro em ver o que era tão certo derreter entre os dedos.

Algumas semanas depois que eu nasci, em 1975, nevou em Curitiba. Meu pai se orgulha de contar que pegou a sua picolina, embalada em um roupinha de lã, e colocou-a junto à janela: quem sabe um dia seus olhos miúdos se lembrassem do branco lá fora. Depois, ele me deixou no berço, correu pelo jardim e fez um boneco de neve que hoje desbota em uma velha fotografia.

Nos anos seguintes, a neve não voltou, o frio, sempre. Era no mês do meu aniversário. Todo junho, invariavelmente, eu acordava para ir à escola e via a nossa grama coberta de geada. Na hora de tirar o pijama e por o uniforme, minha mãe sempre dizia: coragem, coragem! E, quando o incentivo não era o bastante, jogava álcool em uma panela de inox e acendia um fogo efêmero que durava o tempo de eu entrar no agasalho.

Aos domingos, quando meu pai fechava a cantina dele, nos esquentávamos com outra panela: a de fondue, servida em um restaurante que vivia cheio, a chama e o queijo derretido quase tão populares por essas bandas quanto uma pizza.

Nos meus aniversários, fazíamos festas juninas e eu invejava os meninos que podiam aquecer suas cabeças dentro do chapéu de palha. Adolesci com o mesmo termômetro, não podendo usar os decotes que tanto queria de maio a agosto. Aos dezoito anos, perdi a virgindade, e deve ter sido por esses meses, porque lembro de meu namorado esfregando rápido uma palma da mão na outra antes de colocá-las nos meus peitos.

Os momentos mais prazerosos da minha vida eram aquelas dias em que fazia zero grau com céu azul. Me aquecer, numa nesga de Sol, lendo um livro, fez com que eu entendesse porque tantas civilizações adoraram o Astro Rei.

Vinte e cinco anos depois, o mesmo sol, no mesmo mês, é insuportável. Quero mostrar para a minha filha a geada, mas a grama de Curitiba não fica mais branca. Meu companheiro não precisa aquecer as mãos antes de colocar nos meus peitos. O quentão foi trocado por cerveja. O restaurante que servia fondue faliu, e agora, em seu lugar, funciona um escritório de advocacia. Esse ano, usei decotes em maio. Instalei um ar-condicionado antes para refrescar a minha casa do que aquecê-la.

Em geral, até prefiro o calor, mas há algo de sinistro em ver o que era tão certo derreter entre os dedos por conta da intervenção humana. Na sombra, leio notícias: o segundo semestre vai ser pior. O futuro vai ser pior. A indústria dos fósseis fez um lobby tão bem feito que muitos sequer entendem a participação crucial do petróleo no aquecimento.

Do outro lado do mundo, ursos andam desnorteados por onde antes havia gelo. Pássaros despencam mortos por conta do calor úmidoElefantes migram de um país africano a outro fugindo da seca. Monges nepaleses fazem um ritual de despedida do glaciar Yala, que está desaparecendo. Várias cidades brasileiras batem recorde de temperatura.

Eu sinto saudades de um tempo em que era preciso coragem, coragem! para tirar a blusa, e não para enfrentar o imprevisível. Na grama verdejante, que ainda vejo da minha janela, imagino uma lápide para a falecida geada: fina, brava e bela, emprestou brilho para a minha infância.

Compartilhe

5 thoughts on “Não se fazem mais invernos como antigamente

  1. Jose.

    A lista dos cinco maiores poluidores globais, responsáveis por mais da metade (60%) da emissão de CO2 no mundo é:
    1 – China (30%)
    2 – EUA (11%)
    3 – Índia (8%)
    4 – União Europeia (6%)
    5 – Rússia (5%)
    Se somarmos os quatro depois da China, dá o mesmo número da China, ou seja a China sozinha responde por quase 1/3 da emissão do CO2 no mundo.
    Mas não se vê em lugar nenhum qualquer protesto, passeata ou mesmo textos na mídia propondo boicotar produtos chineses ou coisa parecida.
    Já o Brasil, com 2% é atacado noite e dia…
    E antes que alguém venha defender a China ou dizer que está errado, segue a fonte:
    https://revistapesquisa.fapesp.br/producao-de-gases-de-efeito-estufa-cresce-13-no-mundo-mas-cai-12-no-brasil/

  2. Juca bala

    Lembrando querido amigo Zeca Fuentes: só os fortes aguentam frio de Curitiba.

  3. Almir Waldomiro de Macedo

    Será que faz frio na casa nazista de Santa Catarina ? Como anda o processo? Já pagou ? Daria um bom texto : a barrigada do século

  4. Francisco Lima

    População:

    1. Índia: 1,45 bilhão de pessoas
    2. China: 1,42 bilhão de pessoas
    3 . Estados Unidos: 345 milhões de pessoas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.