De um amigo do blog:
Havia uma senhora de casaco de grife amarrada a uma árvore no meio da avenida.
Amarrada de verdade.
Com corda, expressão solene e um olhar que misturava sofrimento ambiental e consciência de enquadramento. Atrás dela, alguém filmava tudo com o celular na vertical enquanto orientava em voz baixa:
— Dona, olha mais pra direita… isso… perfeito. Agora fala dos vídeos que o pessoal subiu ontem.
Atrás da cena, dava pra ver no cantinho a SUV híbrida dela, que descansava na sombra das árvores que ela jurava defender com a própria vida.
Poucos metros adiante, um universitário de barba cuidadosamente despretensiosa segurava um cartaz escrito à mão contra “o colapso climático do capitalismo urbano”. Tinha cara de quem descobriu a revolução entre um cold brew e outro.
Era um grupo disciplinado. Gente que já sabia exatamente qual lado do rosto usar no vídeo da causa certa.
A cena tinha alguma coisa de ensaio fotográfico da indignação contemporânea.
A senhora abraçada à árvore chorava. Chorava mesmo. Como se estivesse diante da devastação definitiva do planeta. E talvez estivesse. Pelo menos do planeta dela. O planeta que começava no portão de casa e terminava exatamente na sombra daquela rua arborizada.
Curioso é que ninguém parecia especialmente mobilizado com a Amazônia. Nem com os rios mortos longe dali. Nem com as serras desmontadas em silêncio no interior do país. A tragédia ambiental, quando acontece distante, exige leitura. Exige abstração. Exige imaginação.
Já a árvore da própria rua aparece perfeitamente no vídeo.
E existe uma diferença brutal entre amar a natureza e amar a estética de parecer alguém que ama a natureza.
Aquelas árvores não eram floresta. Eram urbanismo. Paisagismo. Cidade organizada tentando parecer bucólica. Foram plantadas ali décadas atrás para dar sombra, moldura, elegância. Como os canteiros centrais que as cidades criam para suavizar o concreto e convencer seus moradores de que ainda existe alguma delicadeza possível entre o asfalto e a pressa.
Mas o detalhe que quase ninguém fazia questão de mencionar era outro: as árvores estavam sendo retiradas para abrir espaço a uma faixa exclusiva de ônibus. Não para estacionamento. Não para ampliar pista de carro de luxo. Mas para tentar fazer a cidade andar mais rápido para quem realmente depende dela em movimento.
O drama verdadeiro daquela manhã não estava nas árvores.
Estava nos ônibus.
Ou melhor: nas pessoas dentro deles.
O sujeito que acorda às cinco e meia não aparece no vídeo viralizado. A mulher que perde três horas por dia no transporte coletivo também não. O cobrador aposentado, a diarista, o rapaz da mochila cansada dormindo sentado perto da janela. Nenhum deles produz imagem forte o suficiente para simbolizar consciência social na internet.
Talvez porque pobre em ônibus não renda boa fotografia.
Árvore rende.
Existe uma vaidade silenciosa nas grandes causas performáticas da internet. Não exatamente maldade. Vaidade mesmo. Uma necessidade humana de ser visto moralmente do lado certo da história. O mundo ficou rápido demais para reflexão profunda. Então as pessoas escolhem uma árvore específica para salvar. Um cachorro específico. Uma ciclovia específica. O ser humano precisa de causas que caibam no algoritmo.
Enquanto isso, um homem passa quatro horas do dia dentro de um coletivo quente para sustentar uma vida que quase nunca aparece nas campanhas emocionadas de rede social.
Menos tempo no ônibus talvez significasse: jantar com o filho acordado, ver televisão no sofá, caminhar num parque, dormir meia hora a mais, existir um pouco fora do deslocamento.
Mas isso é invisível.
As redes sociais criaram um novo tipo de militante: o ambientalista de enquadramento.
Ele não luta exatamente pela natureza. Luta pela imagem de si mesmo lutando por ela.
No fundo, toda cidade tem seus ambientalistas de canteiro central. Pessoas que confundem consciência ambiental com oportunidade estética de pertencimento moral. Defendem árvores honestamente. Choram honestamente. Mas talvez estejam protegendo menos a natureza e mais a própria necessidade de parecerem humanas diante da câmera.
E havia alguma coisa profundamente humana nisso tudo.
Radicais raramente lutam pelo planeta. Lutam pelo pedaço do planeta que aparece atrás dele no vídeo.
E talvez seja justamente aí que a cidade revele sua ironia mais delicada: os que mais falam em salvar o mundo quase sempre começam salvando a própria imagem dentro dele.
E são os mesmos que defendem os ovos de tartaruga e saem com faixas defendendo o assassinato de bebês, socialmente chamado de aborto.
Essa é a turma do Goura. Gente que usa casaco de peles enquanto defende os animais! Expressionante! As urnas darão a resposta à eles.
Sensacional o texto…
Ass:
Rapaz cansado de mochila nas costas.