por Lea Oksenberg
Morar no Leme no final dos anos 60 era viver em uma espécie de encruzilhada cultural das mais fascinantes. Eu me sentia dividida em três: de um lado, a adolescente descolada que suspirava pelo John Lennon e os Rolling Stones; de outro, a menina que respirava o ar dos festivais da Record. A boemia e a alta cultura estavam literalmente batendo na nossa janela. O Chico Buarque morava perto de mim e passava todo dia na floricultura de baixo do meu prédio para comprar rosas vermelhas para a Marieta Severo. E no prédio exatamente ao lado do meu, morava o Nelson Motta com a Marília Pêra; a área de serviço do apartamento dele dava direto para a da casa dos meus pais. Era esse o nível do nosso quintal.
Mas havia um terceiro lado nessa história. Um lado que achava o Roberto Carlos meio brega, mas que não resistia ao charme do Rei da Jovem Guarda.
O Roberto não morava ali, mas ficava hospedado em um hotel no Leme, a meia quadra da minha casa. A filha do gerente do hotel era minha amiga de rua e de praia, e toda sexta-feira ela me avisava: “O Roberto tá chegando”. Ele vinha para o Rio para fazer o programa Brotos no 13, ao vivo, na TV Tupi. Como a transmissão da TV na época era local, aquilo era um acontecimento puramente carioca, e eu ia muitas vezes assistir no auditório.
Até que um dia, ele resolveu que ia casar com aquela Nice, lembra?
Naquela sexta-feira, o estômago de fã deu um nó. Achei que não precisava ir ao auditório. Fiquei lá na rua esperando ele chegar, sabendo do casamento. Quando ele apareceu, juntei toda a coragem que tinha no peito, cheguei perto dele e falei: “Canta uma música pra mim? A “Não quero te ver triste assim’. Eu achava que meu ídolo estava triste porque ia casar, e eu pensava: o que eu vou fazer agora? Eu tinha outros ídolos na época, mas ele era o mais próximo.
À noite, liguei a televisão na TV Tupi e sentei bem na frente da tela para assistir ao programa ao vivo. De repente, o Roberto começa a falar e muda a história para quem estava assistindo ouvir: ele disse que estava parado em um sinal e que uma garota tinha chegado perto dele… “Ela era uma garota, mas parecia uma mulher. E era a cara da Nara Leão”.
Foi a última coisa que eu escutei.
Havia um grupo de meninos na rua que se juntava com o violão e tocava A Banda — música que tinha acabado de explodir por ter sido a grande vencedora de um dos festivais mais vistos da época — e tantas outras canções que o Chico fez para a Nara e que a Nara cantava. Eu sabia que era a cara dela. Ver o meu ídolo me descrever daquele jeito, ao vivo na televisão… foi demais para o meu sistema. Meu cérebro, que já tinha sua epilepsia de fábrica, escolheu o momento mais apoteótico para dar um curto-circuito. Tive uma crise epilética ali mesmo e caí desmaiada no chão duro.
Minha mãe chegou em casa, me encontrou caída no chão e entrou em pânico. Me levou correndo para o neurologista e já foi logo abrindo o prontuário com um legítimo drama mexicano: “Doutor, minha filha desmaiou por causa do Roberto Carlos!”.
O médico, em um misto de paciência e genialidade, olhou para ela e disse: “A senhora sabia que todo adolescente tem ídolo? Por favor, se retire daqui”. E pediu para minha mãe me esperar lá fora, me deixando ali, sozinha com o médico, me recuperando do dia em que a Jovem Guarda, a alta cultura e a neurologia se cruzaram na sala da minha casa.
Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam não
(Como nossos pais – Belchior)