15:1550 anos no espelho

Fotos e texto de Ricardo Marajó

De repente, acordei — e meio século havia passado.
Ao me olhar no espelho, notei que aproximadamente 18.300 dias já tinham se esvaído, e eu não tinha nenhuma certeza se viveria mais um.
Ou se tudo acabaria ali, naquele exato momento.
Tudo estava diferente. As rugas, que há muito já vinham sendo construídas em minha face — e eu não percebia — agora pareciam em alto-relevo.
Tive medo.
E, em um excesso de fúria, esmurrrei aquele espelho.
Ele se quebrou.
E, manchado com o meu sangue, parecia ter criado vida.
Fragmentos de história.
Ou cinquenta faces de um eu.
Ou talvez mil e oitocentas e tantas partes de mim.
Partes que me fizeram ser o que sou — ou quem sou.
Cada dia, cada hora, cada vivência.
Erros e acertos que ainda ecoam — mesmo quando finjo silêncio.
Pois isso não é um julgamento.
Sou exatamente cada estilhaço desse espelho quebrado.
Um homem de mil facetas.
Ainda em construção.
Um quebra-cabeça que nunca se completa —
porque, no fundo, nunca precisou se completar.
Cinquenta anos vividos sem projeto.
Um dia de cada vez.
Como se fosse o último.
E talvez fosse.
Porque, a cada amanhecer,
nasce uma nova história.
Então, fico.
Com tudo o que fui.
Com tudo o que ainda me escapa.
E com o que vier —
ainda sem nome

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