10:02Outro herói sem nenhum caráter

Editorial de hoje (03/04) do jornal O Estado de São Paulo

Trajetória de Sergio Moro, de paladino da luta anticorrupção a sabujo do clã Bolsonaro, mostra que é preciso tomar cuidado quando se elegem ‘heróis’ para ‘salvar’ o Brasil

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, ganhou um rival à altura: Sergio Moro. A trajetória desse senador da República, de paladino da luta anticorrupção a sabujo da família Bolsonaro, mostra que é preciso tomar muito cuidado quando se elegem “heróis” para “salvar” o Brasil. Assim como a célebre criação de Mário de Andrade, Moro se converteu em tantos personagens diferentes que é difícil dizer quem ele realmente é.

Primeiro, abandonou o governo de Jair Bolsonaro, em abril de 2020, acusando o então presidente de interferir na Polícia Federal para proteger sua família, encalacrada em casos de rachadinhas e quejandos. Por essa razão, o outrora justiceiro do Brasil, adorado pelos bolsonaristas, foi chamado de “traíra”, “judas” e “mentiroso” por esses mesmos bolsonaristas e de “idiota” pelo próprio Bolsonaro. Moro, que se apresentou como candidato à Presidência em 2022, contra-atacou, dizendo que “quem manda no presidente Bolsonaro é Valdemar Costa Neto”, em referência ao notório chefão do PL, que cumpriu pena por corrupção.

Tudo mudou em outubro de 2022, quando Moro, já eleito senador, declarou apoio a Bolsonaro no segundo turno contra o petista Lula. Depois, Moro defendeu Bolsonaro quando este foi condenado por tentativa de golpe. E, agora, a transformação final: Moro filiou-se ao PL do chefão Valdemar Costa Neto e, como candidato ao governo do Paraná, dará palanque a Flávio Bolsonaro na campanha presidencial – o mesmo Flávio das suspeitas de rachadinha lá no começo dessa história. Como diria Macunaíma, “ai, que preguiça!”.

O País já se acostumou com movimentos políticos por vezes desconcertantes. Basta lembrar que Lula e Geraldo Alckmin, outrora adversários figadais, compuseram a chapa vencedora da eleição presidencial de 2022. O que singulariza o caso de Moro, porém, é o fosso abissal entre o discurso que projetou o ex-todo-poderoso juiz da Lava Jato na vida pública e suas atitudes.

A persona política de Moro foi construída com base na negação do sistema político, tido por ele e seus aliados como essencialmente corrupto. Primeiro como ministro de Estado, depois como senador, Moro chegou a Brasília como a encarnação de uma cruzada moral contra a corrupção. Mas a sustentação desse papel exigia dele pureza de propósito, coerência partidária e distanciamento inequívoco de práticas e pessoas sob suspeição, tudo o que o senador mostrou não ter. Ou bem se está entre os defensores da moralidade pública e do combate à corrupção ou se cerra fileiras com o clã Bolsonaro e Costa Neto.

O Moro “herói” da Lava Jato não resistiu ao teste do tempo e do caráter. Essa figura, a rigor, começou a ruir quando ele não resistiu ao canto da sereia e aceitou convite para entrar no governo de Jair Bolsonaro, dando ares de verdade à acusação de que sua atuação na Lava Jato teve algum viés político. Não se recupera uma imagem depois disso.

Moro pode ser amador politicamente, mas não é um beócio. O senador sabe quem são seus novos correligionários. Sabe, também, o que disse sobre eles no passado recente. Portanto, o que mudou não foram os fatos, mas a conveniência política de todos os envolvidos nessa articulação.

Nunca houve espaço para ingenuidade nesta página. Sabe-se que a política não é terreno para os puristas. Mas não é disso que se trata. Há uma diferença gritante entre reconhecer a complexidade do jogo democrático e trair os próprios princípios. Moro não se projetou nem foi assimilado como apenas mais um político. Foi alçado à condição de símbolo justamente por prometer subverter a lógica do cálculo eleitoral imediato em prol de ambiente político mais racional e republicano. Em Brasília, tornou-se o oposto disso.

Caberá aos eleitores do Paraná decidirem se isso é tolerável. Para este jornal, muito mais relevante do que o futuro do senador é a lição mais ampla desse episódio. O Brasil já viu, mais de uma vez, figuras públicas serem alçadas à condição de “salvadores da Pátria” para, tempos depois, mostrarem suas verdadeiras identidades e intenções. A repetição desse ciclo não é acidental. É decorrência da disposição de parte da sociedade de hostilizar a política e votar em candidatos a messias.

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7 thoughts on “Outro herói sem nenhum caráter

  1. Juca que não é o Bala

    kkkkkk jornaleco esquerdista, o povo bunda aguenta o Lule como salvador da patria, a alma mais honesta desse país e essa bosta de jornal não fala nada, vai a merda

  2. Birnbaum Neto

    O PSOL não tem votos, mas tem o STF. E os jornalões tem donos da direita, pseudo-democratas, mas quem manda são seus jornalistas, que militam ou flertam com a esquerda. Moro errou ao aceitar ser ministro de Bolsonaro, mas isso nao deve ser motivo para esquecermos a roubalheira do PT, do seu chefão e aliados.

  3. Jose.

    E o que falar de Alckmin? E Tebet?
    E na mídia então? Para citar somente um, reinaldo azevedo?!?!

  4. Francisco Lima

    O tico e o teco dos moristas entraram em curto agora! Estadão de esquerda, STF psolista, sobrou até pros tucanos Alckmin e Tebet. É risível o esperneio pra passar pano pro pato manco de Maringá! Os trumpistas devem estar rindo muito da praga que plantaram por aqui e aqui está sendo cultivada pelos beócios de plantão!

  5. Cauan

    Moro é uma farsa. Lembro da cara dele ao lado do Bozo antes do debate em 22. Socorro.

  6. Jecaedonho

    Pelo jeito ninguém se salva… As janelas partidárias quando se abrem assiste uma revoada, cada um procurando seu espaço, independente se lá no passado existiram intrigas, rusgas, importa é o poder, ainda que tenha desavenças, todos serão parte de uma ponte e, jamais barreiras….isto é política que não se importa com os meios,mas, chegar ao topo.
    No

  7. Juca que não é o Bala

    Pois é Francisco Lima, você vai ter que aguentar Moro governador do Paraná kkkkk, esquece que dói menos

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