
Foto e texto de Rodrigo Marajó
Em uma manhã de neblina, saí para fotografar Curitiba. O dia estava cinzento, e uma névoa tomava conta do parque linear da Rua Arthur Bernardes, como quem esconde um segredo com delicadeza.
Nessas horas, a cidade desaprende o barulho. Poucos carros circulavam pelas ruas; os pássaros ainda dormiam ou se escondiam do frio.
Eu caminhava devagar, como de costume quando fotografo sozinho. Não é técnica — é escuta. A imagem sempre fala antes de aparecer.
Foi quando vi a cena pronta, mas ainda viva: um homem deitado na grama, apoiado na mochila, com uma latinha de cerveja ao lado e uma embalagem que talvez fosse seu café da manhã. Ele estava lendo como se estivesse fora do relógio. Não era pose. Era abrigo. Um livro pode ser casa para uns e estrada para outros – naquele momento , era só dele. O tipo de instante que não sabe que está sendo observado — e, por isso mesmo, merece ser.
Não levantei a câmera de imediato. Aprendi que algumas fotos se assustam com a pressa. Primeiro deixei meus olhos fazerem o enquadramento, meu corpo entrar no ritmo da paisagem, minha respiração baixar para não interferir na luz.
Os galhos desenhavam curvas sobre ele, como se a manhã estivesse assinando a composição. Alguns dos pássaros que eu suspeitava estarem dormindo estavam ali próximos, fiscais silenciosos daquela tranquilidade. A névoa apagava o excesso do mundo — postes, fios, distâncias — e deixava só o essencial: alguém lendo, o chão, o ar, o agora.
Quando finalmente fotografei, não foi para registrar um homem lendo. Foi para guardar a ideia de pausa — coisa rara e em extinção.
Fotografia, às vezes, é isso: provar que o instante existiu. E, mais ainda, que alguém o respeitou o suficiente para não interromper.