por Carlos Castelo
Outro dia, estava eu em paz, tomando meu chá de camomila e assistindo a uma reprise da Hebe, quando recebo uma mensagem no celular: “VOCÊ ESTÁ MORTO?”. Pensei: ora, se estou lendo isso, deve ser algum engano. Ou, de repente, fui parar no purgatório.
O tal aplicativo chama-se Sileme. Chinês. Serve para quem mora sozinho (presente!) e precisa ser monitorado por um botão de existência. Se você não der um “oi” digital a cada 48 horas, ele deduz que você já está com os dois pés no além. E manda alerta para alguém da sua confiança. No meu caso, botei a dona Ivonete, síndica do condomínio, que confia mais em mim do que eu mesmo.
A ideia parece boa, mas o nome, nem tanto: Sileme. Em mandarim soa como “Você está morto?”. Sinceramente, o único app que devia me perguntar isso era o do INSS, e só quando eu atrasasse o empréstimo consignado.
Para evitar o climão necrológico, mudaram o nome para Demumu. O que me parece mais uma onomatopeia triste. Tipo um suspiro de gente que perdeu o ônibus da vida.
Tentei usar. Instalei. Configurei. Esqueci. Fui tirar um cochilo, e quando acordei, estavam a Ivonete, dois paramédicos e um rapaz da farmácia em volta da minha cama, batendo palma e gritando meu nome como se fosse bingo. O app tinha disparado o alarme da minha “ausência de vitalidade digital”. Eu estava mais vivo do que nunca, só que de olhos fechados e roncando com grande dignidade.
O pior é que agora, se passo mais de um dia sem responder, recebo olhares suspeitos do povo do prédio. Um silêncio meu e já acham que fui para o andar de cima. E não estou me referindo ao apartamento da dona Margarida.
O app é como um cachorro carente: precisa de validação constante. “Você está bem?”, “Você está aí?”, “Você continua entre os vivos?”. É o tipo de apego que faria até terapeuta largar o caso por exaustão emocional.
Mas confesso: tem seu charme. Afinal, é delicado alguém, mesmo que seja um chinês anônimo, se importar com a minha existência. Nessa idade, qualquer notificação conta como prova de atenção. E se não é o amor, que seja o push.
Por via das dúvidas, deixei instalado. Não pelo recurso. Mas porque é prazeroso receber uma pergunta de vez em quando, nem que seja: “Você está morto?”. Pelo menos me lembra que ainda não estou.
(Publicado no OSOL)