de Murilo Mendes
O índio fica no escuro,
O índio não sai do escuro
Mas o inimigo ele vê.
Tem o inimigo um sentido,
Tem o sentido do tato,
Só sabe as armas pegar.
Camarão tem todos eles
Bem aguçados, treinados;
Ninguém tem um faro assim.
O inimigo se aproxima,
Não vê ninguém na sua frente,
Nem de lado, nem atrás.
De repente um tiro canta,
Ou então seta certeira,
Cai o inimigo no chão.
Os inimigos arriscam:
Aqui tem mas é macumba,
Aqui tem assombração.
Mal acabam de falar,
Parte outra seta do escuro,
Ninguém sabe de onde vem.
Fica tudo desnorteado,
Não sabe pra onde atiram,
Acabam então dando o fora.
Camarão sumiu no escuro.
Ninguém o pega, não vê.
Sumiu debaixo da terra.
Depois Camarão morreu,
Desaparece no escuro,
Mas já está acostumado.
Sumiu, sumiu para sempre,
Ninguém viu ele morrer.