por Carlos Castelo
Confesso que hesitei antes de escrever esta avaliação. Sempre fico dividido entre a vontade de ser gentil e o desejo de alertar os outros. No entanto, a verdade precisa ser dita. Especialmente quando se trata de Airbnb, Uber e depoimentos à Polícia Federal.
De modo geral, posso dizer que minha estadia no imóvel foi boa. Sim, tudo ok. Se considerarmos que ainda tenho todos os órgãos, extremidades, e uma vaga noção da realidade.
Vamos aos detalhes, apenas para registrar pequenos incidentes que, isoladamente, seriam insignificantes. Mas que, juntos, formam o tipo de experiência que faz uma pessoa reconsiderar o conceito de lar doce lar.
O CHECK-IN
O anfitrião me informou que a chave estava num lugar seguro. Descobri que lugar seguro significava embaixo da casinha do cachorro do vizinho. O animal, um rottweiler de temperamento irritadiço, não me mordeu, mas cobrou pedágio emocional em forma de pulos, arreganhar de dentes e latidos ameaçadores. Acabei dormindo no carro e, pela manhã, mandei fazer uma cópia da chave. Que, aliás, até o momento não teve o valor reembolsado pelo anfitrião.
A CASA
Charmosa, como foi descrita no site. Porém, seria mais verdadeiro e adequado dizer: vintage pós-apocalíptica. A decoração foi certamente inspirada num catálogo da Casas Bahia de 1974. A geladeira, por exemplo, fazia um som que misturava orquestra sinfônica com motor de treminhão de oito eixos na subida da Serra das Araras.
O CHUVEIRO
Funcionava perfeitamente. Por três segundos. Após esse intervalo, passava a alternar entre chuva ártica e lava vulcânica. Um banho ali exigia reflexos de ninja e fé em alguma divindade protetora dos viajantes.
O COLCHÃO
Tinha a consistência de uma geleia vencida. Dormi num vale misterioso que se formou no centro dele. Não há dúvida: centenas de almas tinham se deitado ali antes de mim e saído com hérnia de disco.
A VISITA INESPERADA
Na segunda noite, acordei com um barulho vindo da sala. Pensei ser um ladrão, mas era o aquecedor, que decidiu, durante a madrugada inteira, ensaiar um papel no filme O Exorcismo de Emily Rose.
O ANFITRIÃO
Gentil, atencioso e confiante de que tudo estava funcionando muitíssimo bem. Enviei um vídeo do aquecedor em estado de possessão demoníaca, e ele respondeu com um emoji sorridente e a frase: “Isso é supernormal nas noites mais frias. Tente ligar e desligar, costuma dar certo.”
Apesar de tudo isso, quero reforçar que, na média, foi tudo bem. Afinal, não infartei, não faleci, não fui atacado pelo cão do vizinho, e saí com histórias suficientes para entreter meus amigos em infindáveis jantares.
Daria cinco estrelas ao imóvel pelo entretenimento involuntário, mas temo que o sistema do Airbnb interprete isso como ironia. E não é de minha natureza confundir algoritmos.