por Carlos Castelo
1501 foi um ano longo, quente e bastante confuso. Ou seja, o Brasil sendo Brasil desde o começo.
Janeiro
O ano começa abrasador. E tão úmido que a caravela de Gaspar de Lemos começa a criar musgo nas velas. Os portugueses ainda tentam entender o que exatamente encontraram. Ilha? Continente? Promoção da CVC?
Enquanto isso, os nativos observam os europeus com a mesma curiosidade com que hoje vemos gringos tentando comer coxinha com garfo e faca. A comunicação é feita com gestos, pescotapas e trocas de bugigangas.
Fevereiro
O calor aumenta, a roupa diminui, e algum lusitano bronzeado demais escreve para Lisboa que aqui as pessoas andam nuas com grande desenvoltura.
Vem a primeira ideia de se criar uma colônia de férias. Lisboa, sempre atrasada nas tendências, manda uma comissão de padres para a ilha nudista.
Março
Naturalistas começam a listar os bichos da terra. Uma anta é confundida com um bispo, e vice-versa, sem ofensa a nenhum dos dois. O mosquito da dengue começa sua saga milenar de picar turistas desavisados.
Abril
Começa a extração do pau-brasil. Notam que solta tinta encarnada. Um velho xamã profetiza que aquilo é um aviso: aquela terra ficaria no vermelho por muitos séculos. Os colonizadores riem dele e continuam comendo sardinhas na brasa.
Maio
O nativo oferece uma raiz a um português. Era mandioca. Descobrem que é comestível. Nasce, ali, o conceito ancestral da tapioca, que um dia invadirá cafés hipsters em São Paulo por R$ 23,90 a unidade sem recheio.
Junho
Primeiros relatos de festas ao redor do fogo com muita dança, berros e comida. Os portugueses acham que é um ritual satânico. Os nativos acham que os portugueses têm cara de quem estraga a festa. Começam os primeiros choques culturais: os europeus querem catequizar, os nativos só querem dançar.
Julho
Não aconteceu nada.
Agosto
Um barril fermentado pelos locais surpreende a todos. Um português diz “isto é veneno!” antes de pedir outro copo. Surge a primeira ressaca documentada nas Américas.
Setembro
Tentando pescar com rede, os portugueses são atacados por crustáceos. Os caranguejos avançam com suas tenazes erguidas. Nasce o primeiro rodízio de frutos do mar da América do Sul.
Outubro
Um navio com bandeira tricolor é visto tentando negociar diretamente com os tupinambás. Os portugueses protestam. Os franceses fogem, deixando baguete, vinho e queijos fedorentos.
Novembro
Os colonizadores começam a cansar de tanto mato, bicho, calor, e começam a sonhar com temporadas de fado no Alentejo. Descobre-se que viver no paraíso é bom, até aparecer uma jaguatirica na barraca.
Dezembro
Os colonizadores fazem promessas para o ano de 1502. “Vou aprender a língua local”, “Vou ser mais solidário”, “Vou ter mais empatia com os diferentes de mim”. Todas quebradas a partir do dia 2 de janeiro.
(Publicado no Estadão)